segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Suspendi o tempo dos receios e das hesitações. Dos infusores e leucopenia elevada. Dos corredores cheios de médicos, das seringas e uniformes brancos. Das visitas nutricionais, oncológicas e hospitalar.
Coração agreste mais parece nuvem circundada de sublime. A irmã toda cuidadosa tratou logo de emprestar a maior e mais verdolenga mala-de-viagem. Desembaraçada rebusco cada ponto, cada canto. Tudo amiúde; a beiradinha da casa descascada, o pé de malva-roxo esparramando-se na parede da cozinha, a flor de alho na lata de óleo, a mesa sem toalha, o café amargo com bolacha sete-capas, as balas de alfenim no pote furta-cor. A algazarra convidativa dos irmãos, a mãe o tempo todo oferecendo copos de água, de sucos e outras coisinhas açucaradas.
Partiremos na brevidade de uma dessas tardes porque a nossa arvorezinha de livros - arrumada desde o primeiro dia deste mês - relembra que já é Natal outra vez. Aqui em casa sempre preferimos celebrar esta data de uma maneira bem particular. Sem luzes ou guirlandas, sem presentes, comilanças ou fuzuê.
Prefiro pensar que Jesus naquela noite de nascimento, numa estalagem simples e poeirenta chorou a falta de uma coberta e seu choro foi ouvido apenas por uma corajosa moça e um carpinteiro todo cansado e sonolento.
Nunca soube ao certo os detalhes daquela hora madrugosa . Os relatos dão conta que havia homens trabalhando; pastores cuidavam de suas ovelhas ali por perto e tudo que eles queriam eram que nenhum imprevisto acontecesse. Sou quase um pastor daqueles. Cuidadosa do meu rebanhinho e desejosa que tudo de mais tranquilo aconteça.
Que esta passagem de tempo ocorra serenamente, amorosamente, com abundância de alegrias e saúde. “Se as panelas e a cama forem de ferro, o resto Deus provê”.
Queridos Amigos e Familiares!
Sou toda gratidão pela amizade de vocês, cuidado, bem querer e bom coração.
Para compensar as incertezas apresentadas bem no comecinho do primeiro semestre, estaremos nordesteando dispostos à benignidade, ao irrisório e doçuras.
Um abraço apertado, irmanado e fraterno. Deus os proteja em TUDO.

A vizinha que vive brigando com o namorado briga de novo e por telefone. Alta madrugada começa o tirinete de gritos. Passa mal dos nervos a criatura e maldiz o cachorro, chora, quebra o porta-retratos, rasga a sacola que ele deixou pendurada na alça do portão. Funga com o nariz mais choroso do mundo e disseca palavrões com os espasmos de cobra bem ferida. Levanto discreta, em silêncio de morte, pego um copo d’água. A luz da lua clareia toda a cozinha. Olho para os fios que perpassam nossas casas as andorinhas e pardais já não pousam, as gotas da calha há tempo cessaram e nenhum gato habita os muros. Todos dormem. O coração da vizinha continua sangrando na estampa floral de um agonioso sábado. Coisa de seiscentos Lúcifer, coisas de quem nunca leu o salmo vinte e três nem recebeu um saquinho de pão cheio de pirulitos ou tomou partido da floração de alegria dos ipês amarelíssimos. Coisa de quem pensa que o amor se molda com pedradas, de gente que dispensa o convite da cachoeira e continua perdendo tempo com a bica rala.
Sigamos confiantes para uma semana boa. 

Que o cheiro dos Ventos Antigos nos guarde e Deus nos renove com belas surpresas. 
Beijos em TODOS.

domingo, 24 de novembro de 2013





Senhor se for da tua vontade devolve nossas pocinhas de água clara para chapinharmos  com pés descalços sem temor de febre. Devolve nosso cheiro de azul nas auroras de vossos frutos, devolve nossas noites sem luz elétrica, nossas brincadeiras de rodas e de roubar bandeiras, nossa bacia cheia de espuma e saúde. Devolve Senhor se for da tua vontade; nosso cálice com cidra e os gominhos de mel na colherinha de prata. Devolve também nossa taipa e pandorga, nosso consolo de açúcar fininho e caramelizado.
Devolve Senhor o ardor da sarça e o cordeiro no lugar de Isac. Devolve alguns cômodos de minha alma que se foi na enxurrada do tempo. Devolve por favor, o terreirinho cercado de malva e o alecrim da infância na latinha de doce-de-goiaba. Devolve-me se possível os detalhes das estrelas francas e a lembrança de minha avó atiçando as brasas. Devolve-me Senhor, se for da tua vontade...

sexta-feira, 22 de novembro de 2013



Ela esquece o celular no carro e me chama de gatíssima.
Vive fotografando pedaços do céu, libélula e pó de café usado .
Com frequência desarruma o quarto, mas tem conduta impecável.
Gosta de assuntos sonoros, de coisas simples e de natureza.

“Seu amor reluz em mim como riqueza, asa do meu destino, clareza do tino e pétala...”

segunda-feira, 18 de novembro de 2013


Anos a fio essa peleja. Esse cativeiro, esse flautim tristonho, essa lâmina encostada no meu peito. O Poeta transferiu pros versos seu lamento secreto. A Brisa expressou o pesar dela em conversas distintas e tentativas de alforria. Sem êxito. Os bicos entristecidos continuam experimentando a ração presa ao destino. Eu que sou mais maligna de todos joguei mel e veneno, desprezei o trato, falei das amarras e maldições, tentei mil diálogos, desandei chorona, maldisse a natureza humana de gênesis a apocalipse. Não houve proveito. Prometi denúncia, perdi a doçura e suspendi visitas. Nada adiantou. Continuam as trocas, os piados tristes, os passarinheiros e suas bicicletas mal pintadas são os visitantes mais esperados. Nos dias de sol quando as paredes se tornam um braseiro é muito pior. As gaiolas ganham burcas e camuflagem de TNT azul- ardósia. Sofro como se o meu pai nunca tivesse me amado, como se a chuva não fosse cheirosa. Sofro querendo um longe para fugir desses gestos que me desconsolam. Lembro-me do meu pai defensor de pássaros, chapéu de palha, alpercata de sola plagiando cantigas em carrocinha de doce:
“O que os olhos não veem coração não chora. Coração não chora. Coração não chora".
Um abraço apertado com palhinhas de capim-dourado em TODOS.

sábado, 16 de novembro de 2013




Desenho no papel de pão uma flor de quatro pétalas enquanto ele corta tomatinho e cebola para a sopa escutando rádio. Os cachorros do vizinho da frente continuam latindo com irritante ênfase.
A calçada, garagem e quintal estão cobertos de folhas, tão amarelas até parece que caíram do sol. Quatro dias na estalagem hospitalar avolumaram-se os afazeres domésticos. Estávamos desejosos de casa, amargando a saudade prévia de cada canto. O proveito de tudo são os saberes que ganhamos ao longo desses apartes. Sabemos que os amigos estão na provisão do bem restabelecendo o fio de tudo que é saudável. Os sobrinhos são nossas tirinhas de ouro no visitar das tardes. Os irmãos continuam sendo “meus- minino- pequenos” e a mãe um sorriso na porta esperando notícias. Sabemos também que a poesia não ganha pulsar doloroso mesmo com o reaparecimento das águas tóxicas e a permanência dos tumores.
Nesse tempo a horta engravidou a roseira. Está pesada de botões roxos. A passarinhada continua cantoriando no pé de limão cravo.
Voltar para casa é diferir do resto. É sentir que o cheiro da chuva supera em muito o cuidado dos enfermeiros. É livrar-se de aguardar a febre, é deixar de temer o obvio e se recompor no meio dos alegres. É contemplar a luz invisível da lua cheia que, mesmo sem aparecer no céu a gente sabe que está lá.
É dar graças a Deus e pensar em Jesus.
“Por séculos e séculos o coisaruim nos cega com embustes. E o corpo dele na cruz suspenso. E o corpo dele sem panos”...
Oh Salvador meu, continue olhando por nós viu? Eu te adoro!
Obrigada a TODOS amigos e familiares pela primícia sincera do afeto que vem de cada UM e nos protege.
O que mais quero é saúde para envelhecer ao lado dele, meu amoroso dono.



As panelas de casa permanecem brilhosas e bem guardadas.
A estradinha da caminhada deve sentir falta dos seus passos miúdos e apressados.
O vizinho disse-me que deu falta dele pelo silêncio do portão e do rádio desligado. 
O manjericão não me disse nada, mas também não recebeu mais as cascas de mamão, inhame e sementes de goiaba.
Voltou para Hospital a criatura!
Uma insuficiência hepática moderada levou-o novamente aos apartamentos do Vivalle, as agulhadinhas para acesso antibiótico, soro e outros puxões no braço fino.
Estamos juntos feitos perfuminho do mesmo grude. Não o deixo por nada. Só um bocadinho pela manhã para dar meu plantão, mas ao iniciar à tarde já encosto com bagagem e tudo. Brisa idem. Somos duas vigilantes, amor e cuidadoras. Certas que em breve haverá maná e queijadinha nobre, néctar de romã e cocada de coco feito milagres-de-festa para Todos nós.
Estamos limitados à internet. Desculpem-nos pela falta de resposta para as mensagens inbox, os recados e amorosidades. Em breve tudo se normalizará com a graça de Deus. Um abraço em TODOS e gratidão maior. 13/11/2013.

sábado, 9 de novembro de 2013

Espero-te para um dedo de prosa, para um abraço certeiro, prum gracejo, pra repartirmos uma bala de coração.
Espero-te para lermos os poemas da Adélia, do Manuel, da Dyrce, Paulo Barja, Josie, Mirian’s, Patativa, e  Juracy.
Espero-te descalça  na cadeira mais limpa, com olhar de véspera alma enfeitada de miçangas e cocada carmesim.
Se vieres para às 14h
Desde as 11h serei mais feliz!
Espaço Cassiano Ricardo – Bienal do Livro
Poesia Por TODOS as 14h.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013



E Deus atendeu meu pedido. Estendeu sua mão, guardou-me dos males e livrou-me das dores...
( 1.Crônicas 4.10)
A poesia prevalece em mim como os lagartos nas pedras...
A cerimônia de abertura aconteceu às 19h do dia 1º de novembro, no Pavilhão Gaivotas, para autoridades e convidados. Na ocasião, foi entregue o prêmio “Cassiano Ricardo” da Fundação Cultural à família de Helena Weiss, como reconhecimento à contribuição da folclorista para o incentivo à cultura joseense.

Nos fins de semana (dias 2 e 3 e dias 9 e 10), o evento ficará aberto das 10h às 22h. Já durante a semana, o funcionamento será das 9h às 22h. A promoção está a cargo da Prefeitura de São José, por meio da Secretaria Municipal de Educação, da Fundação Cultural Cassiano Ricardo e da AJFAC (Associação Joseense para o Fomento da Arte e da Cultura).

De 24/10 a 10/11/2013 A cidade se enfeita de ARTE e CULTURA para todas as idades.


Quando você me amava
eu andava incompleta de vazios
em tudo havia um sentimento molhoso que imitava o cintilar dos lírios brandos
aprendi nesse tempo de azul mais do que tudo
aprendi também de milagres, de pássaros,
de cânticos, miçangas e de flor.
aprendi palpitações que granjeiam os olhos
aprendi de calêndula e de nunca bordar lágrima em angústia
- porque não existia uma página, um filete, uma nesga sequer de angústia -
tudo era germino, orvalho, lampadário advindos das sonatas
que os Querubins faziam nos campos de Salomão.

terça-feira, 3 de setembro de 2013



Mãe, no domingo fui às lojas americanas, eu e o Poeta. Vi essa lavanda e pedi para ele comprar. Quis sentir o seu cheiro Mãe, lembrar como seu perfume era escolar e pacífico.
Lembrei-me também de quando a senhora desidratava folhas para enfeitar as paredes.
A senhora nunca teve semblante grave Mãe, por isso em tardes de chuva brandinha eu te lembro. Lembro-te recitando alguns mandamentos, esquecendo-se de cuidar dos dentes, perdendo chaves, guardando fitas de cabelo na bíblia.
Lembro-te dizendo que Deus prover tudo: alimento, sonhos, saúde, calor de velas e pés de chá.
Hoje sei; Ele prover isso tudo e muito mais Mãe.
Tiro a lavanda da caixa, abro a tampa e sinto seu cheiro. Peço para Brisa tirar um retrato. Amanhã é dia de quimio e vou ter que desligar.
Lembre-se que ainda tenho medo de almas e não aprendi a escapar das lágrimas como faz as boninas.

Um abraço amoroso em TODOS.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Desabafo de UMA iniciante no Outono de Noventa e UM





Por desatino insalubre resolveu matar-me
Queimou os bordados que eu pregava nas cartas
Quebrou lembranças e meu alguidar
Fez umas amarras delicadas
 com suas mãos finas de folhas e versos
e  vedou meus olhos
esvaziou a cuia e meu sol
expulsou do alecrinzeiro a mariposa que chamava chuva
passou chá de arco em todo meu corpo

e me cremou viva, vivinha.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Tautologiando



 
“De repente o riso fez-se pranto”.

Tínhamos em nossas vidas um câncer agressivo e letal.
Mesmo cercados de cuidados médicos, informações, amigos e afetos não ouso dizer que foi fácil os primeiros dias, porque sou sincera.
Chorei como chora os sem pátria, os sem teto, os famintos e desesperançosos, os apoucados na fé.
Chorei ao acaso, no sereno, nos canteiros e praças, consultórios, igreja, nos plantões e sinais fechados.
Chorei feito Samaritana com seu cântaro e sede na secura do poço.
Até que numa madrugadinha, sentada ao chão no quartinho do fundo, relendo os salmistas, com uma caneca velha de chá frio na mão esquerda, vejo a Brisa entrar de mansinho, sentar-se ao meu lado e falar bem baixo:
- Escrevi uma coisa e musiquei pro papai, quer ouvir?
Fui até seu quarto e escutei aquela vozinha açucarada cantando para si “o sol já vai nascer menina, é tempo  de correr, sorria”.
Abracei-lhe, beijei-lhe os cabelos ondulados. 
Cantei com ela. Prestando atenção na melodia, no papel rabiscado com a letra da canção, nas suas mãozinhas finas conduzindo o violão que eu e o pai lhe demos de presente quando ainda era um tiquinho de gente.
 Entendi os desígnios de Deus na nossa história e tomei como graça todo o acontecido.
Na manhã seguinte o Poeta juntou-se a nós numa cantar feliz e emocionado.
Estávamos repletos. Deus nos multiplicava, “nos conduzia e nos protegia com suas mãos fortes”.
Essa música passou a ser nosso hino-família.
Nossa primeira estrela a brilhar naquela noite junina, gélida e chorosa.
Superamos o temor, o vai-e-vem das dores miúdas. As internações, os medicamentos de hora em hora, o centro cirúrgico.
Superamos a perda de peso, o estancar das águas tóxicas, a descoberta da terceira lesão, a quimioterapia e a nova porção alimentar que sustenta a vitalidade das promessas.
Estamos em campanha há cinqüenta dias e, os amigos não se apartam da gente. 
Um bando de LINDOS. 
Nenhum menos rouco em vigília e preces, abraços, entrega e risos, chamando o MILAGRE para compor este acordo.
 
“Estrelas brincarão de roda/ cometas tocarão baião/ corujas olharão fogueiras, esquilos e bolhas de sabão”...

Saúde com abundância e sorte.
 
http://www.youtube.com/watch?v=1jvGpd15D3Q
 

quinta-feira, 27 de junho de 2013



Estamos na estrada da ponte
olhos pregados nas portas da fé
e água de coração 
escorrendo pelos olhos...

sexta-feira, 21 de junho de 2013


"Numa folha qualquer eu também desenhava um sol amarelo".

Hoje não desenhei. Amanheci com um sentimento de contenteza descontente. Um misto de desvanecimento e cuidado.
Abaixou a passagem. Abaixaram as bandeiras. A cidadania foi exercitada.Perseguimos a marcha até a descidinha da ladeira, mas ficou aquele eco espinhoso de hibridez; palavras sem sentido, emoção e vidros. Ficou o Drummond feito um pirralho oportuno a cutucar meus tutanos: "Você marcha José, para onde"?
Seu Pedro não marchava. Ia de carro com o filho e a nora Antônia à um Hospital conhecido na cidade de São Paulo. Finalmente um doador e o tão esperado (há 03 anos) transplante de órgão seria realizado. Seu Pedro chorou quando viu a Dutra empatada. Sua pressão arterial se elevou a ponto de ele sofrer um AVC moderado.
Ouvindo esse relato no segundo atendimento da manhã no plantão social tentei amenizar meu vazio pensando nas análises que Marx e Engels fazem no Manifesto.
Falei para minha filha o quanto precisamos ler mais Sartre, Marilena Chauí, Erick Fromm... deixar a tv desligada.
Precisamos entender a alienação do homem em relação ao homem.
Precisamos estudar mais política. Legitimar nossa querência, nosso brado. Exercitar a arte de argumentar.
São tantas reivindicações, tantos desejos para tão pouco diálogo meu Deus!
Tanta inflação de egos!
"Mesmo a árvore mais desatenta cuida da estrada".
Não cuidei da nossa.
Quero me aquietar mas a esperança é muito mais teimosa que eu.
Paulo Barja, adorei seu poema!
"Abutre é mesmo traiçoeiro".

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Minha Filha!
Antes eu guardava teus potes de guache vazios, os tocos de lápis, as tirinhas sobrantes das cartolinas de cor. 
Chegava a ouvir tua respiração. 
Entregava-te aos anjos que também migraram para melhorar os sonhos. 
E só descansava quando tua voz devolvia a alegria da casa que em silêncio te esperava.
Amanhã não descansarei. Depois do Plantão Social vou pra RUA contigo e com todos os outros de PAZ.


Mais uma vez a Literatura valeparaibana esteve inserida nesse importante acontecimento. 
Espaço Cassiano Ricardo foi nossa casa-abrigo, nosso jardim, nosso riacho cheio de contenteza.
Somente quem desceu a ladeira da principal rua da cidade, escoltada pela Guarda Municipal sabe a importância desse contexto.Alumiamos o indizível. 
                                Foi mesmo uma festa de palavras acredoce bem valeparaibanas!


terça-feira, 11 de junho de 2013

Entre mudança, flor miudinha e outros ocasos.




Por cinco anos no mesmo horário abri a janela de madeira grossa, pintada de bege com gradinha protetiva azul.
Aberta, era como um bom vinho. Enchia-me a alma, adoçava a vista. Os canteiros de rosas na avenida estreita, os ipês enfileirados, os flamboyanzeiros, os quero-queros e os bem-te-vis desafobados, ensinavam-me que “o mundo não é limitado, nós que o reduzimos por preguiça de enxergá-lo”.
O elefante branco, antigo prédio em frente à janela, na sua mudez de alvura até parecia um sobrevivente satisfeito com a alforria do borboletário e também com a corrida dos recrutas em suas cantorias ritmadas: “Sou soldado da Pátria/ Meu Brasil vou defender...” E todos repetiam: “VOU DEFENDER” com voz de fortes.

A luz da paisagem que eu via também era de passagem e, eu sabia.
Sabia que num desses dias ao amanhecer, receberíamos a visita da Ana, do arquiteto Luis Carlos, do Engenheiro Rogério e do Amarildo, o mais ágil pedreiro que usa boné propagando a Texaco.
Projetei minha ausência com ritual e zelo. Obedecendo a ordem harmoniosa de despejo, aliviei o espaço.
Os meninos do setor financeiro apareceram em trio; Reinaldo, Vinicius e João Victor. Com disposição traziam a força dos que chegam a tempo e, cuidaram de transferir a apoucada mobília; um armário de aço, um outro de cor azulada, o extintor de incêndio, três pares de muletas e uma bengala foram todos parar na sala vizinha. A mesa, a cadeira giratória, o vaso de argila com lírio raro, o quadro mural verde com informes-recados e a placa de Assistente Social, o Antônio levou para o novo setor; uma salinha estreita e desavisada, com porta para a rua e sem qualquer moldura para enfeitar a sonolência das paredes.
Meti a esperança na primeira gaveta e lembrei-me das causas que nos estimulam  a amar o novo.
Arrumei a violeta no beiral, a garrafa d’água, o telefone - que agora tem fio-, a impressora, o calendário, o porta-lenço e o aparador de canetas. O computador, os livros, a bíblia e a foto em família.

Já estava quase na hora do almoço quando ouvi as cigarras no açaizeiro. Fui até a porta e vi o manacá entre as pedras cheinho de flor. Julguei-me dona dos ventos celestes e dos risos de Serafins graciosos. Tudo estava certo especialmente pelo jardim das cigarras. Meu avô dizia: “quando há cigarras a festa está bem perto”. E a festa está perto de fato, bem na minha frente beirando a calçada.

Zenilda Lua

domingo, 12 de maio de 2013



Ela me chama de Mãe e protege-me com suas cantigas, orações, leituras midiáticas, pedidos  e  risadas de engraçamento. Eu metade gente e metade  taquara coberta de musgo retrançado sempre caio nas suas conversas e me desconcentro de tudo que é sério. Declamo poemas, invento paródias, cantoriazinha de renovo. Vamos à cozinha;  preparo hambúrguer de soja  ela corta  abobrinha pro  refogo. O arroz fica pronto, a alface lavada, o amor e os sonhos se misturando num céu de futuro.  Vai chegar um dia que a ausência dela vai encaracolar ainda mais meus cabelos desgrenhados, vai fazer do meu coração mil cacimbas de saudade, vai cavar meus olhos até desbotarem com a água salobra que a chuva não faz.
Aí, aí viu?
Mãe cativa, manquitola, querendo prender o tempo numa fragrância encantada, para quando precisar do invisível encontrá-lo na brandura de todas as  razões. ..
Especialmente na flor pro cabelo adormecida sobre a banqueta do quarto ou do abajur da sala.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Travesseiro dos meus braços




Molecota e primeira de uma prole de seis, eu dava de botar reparo na mãe. 
Na curteza dos tempos, aparecia  à criatura barriguda de  novo! Umbigão sobrepujando na encosta da blusa de malha listrada.
Decretada a feita, eu tinia de raiva. Permitia-me silêncio de morte por várias semanas sem a menor paciência de aturar outra vez os enjôos até pelo cheiro de coalhada e, os longos cuidados, caprichos, repouso na normalidade do processo pós-parto.
E, lá ia a mais velha magricela no amiudar das horas, cuidar da pequerruchadinha, balançar na rede, acordar bem de manhãzinha, lavar fraldas de pano – tirar aquelas coisinhas gosmentas, esverdeadas e mal cheirosas sem engulho, era de tudo impossível! Eu engulhava até ficar tonta, mas prosseguia. Depois lá ia a mamulenga cautelosa quebrar a frieza da água para banhozinhos amornados na bacia branca de ágata. Imitar os piados da passarinhada, inventar cantigas e toadas sem nenhuma vocação, só para distrair aqueles tiquinhos de gente agalegados, olhos puxados para o mel mais claro e cabelos amarelinhos feitos cor de milho novo. Dava até gosto a robustez das bochechas e a brancura dos  bumbuzinhos cheios de talco barato e, beliscãozinhos que eu mesma dava levantando suspeita de infinito amor.
- Cadê a broinha que tava aqui? – eu dizia cocegando  a mãozinha rechonchuda que me agarrava aos cabelos, encolhendo o corpinho na maior risada. –  
- O gato comeu foi?
-  E cadê o gato?
- Saiu por aqui, passou por aqui, descansou aqui e...
- Achei o gato! – eles gargalhavam e, eu aproveitava para estender a porção alimentar: mingau de araruta em colheradinhas... Comiam tudo até arrotar num suspiro doce.
Eles eram meu recesso, minha aflição nascente, minha privação de arbítrio, meus desvios de infância e brincadeiras. Mas especialmente eram meus anjos sem andor, meus motivos de altos risos. Minha roda de conversa, minha música e terapia. Eles eram meus brinquedos saudáveis, minha testa suada, meu coração cheio de fitas e filó.
Nunca ficavam doentes. Nem de catapora, nem de sarampo, rubéola, dengue, caxumba, fadiga. Nem por falta de vacinas. Febre, só muito de vez em quandinho na floração dos dentes.
Eles eram meus. Meus amores, alegria, devoção e garantia. E ainda o são. São meus lumes mais sublimes, meu norte enfeitado, minha lente de alcance, meu religar com o passado, “meus Querubins de procissão no interior”.
Eu também sou para eles, lamparinazinha no fruir das brechas, tangedoura de aflição localizável. Quando me evocam largo tudo e parto no clarinar dos galos. Atesto minha presença com abraços bem apertados, olhos nos olhos, palavreado de adjutório e silêncio. - Tem vez que só a mudez interior alivia a carga.-  Cada um sabe o que o outro está vivendo e, vivemos felizes na meiga oferenda da simplicidade, lonjura e respeito. Não existe tristeza repisada nem segredos. Eles sabem que a qualquer momento no oitão de seus cansaços, ‘se quiser, podem fazer um travesseiro dos meus braços’. 


domingo, 14 de abril de 2013




Eu penaria sem vocês.
Eu penaria feito as ramas do pé de cipó na seca. Penaria como pena cigana velha sem voz, com roupas precárias e sem cor, procurando atávica em cada mão inválida o semblante de vocês.
Penaria feito açucenas de papel, amores-perfeitos e rosinhas discretas que enfeitam a capela solitária da estradinha brejeira e nunca ninguém as percebe.
Penaria em cada por-de-sol, em cada visita ao banhado, quermesse, festa-junina, em cada passeio, em toda poesia que eu lesse.
Penaria no esmorecer das manhãs de outono e na amareleza  das luas cheias.
Eu penaria só de ver a tigela com doce de goiaba e rapadurinha de coco Mirian Cris.
Eu penaria infeliz e morta pela ausência de vocês. Porque vocês me dão a clareza das luzes eternas, a simpleza de um céu que não tem tamanho, o esplendor dos cânticos bíblicos, os valores estocados na matéria da alma.
Vocês me dão o barulhinho dos passos de um Cristo lírico correndo feliz num prado de violetas.
Eu penaria sem vocês e choraria de saudade todas as vezes que ouvisse as cantigas de nossa tarde:
"Meninos vem brincar no mar! Oh mar vem lavar pés de menino"...

quarta-feira, 10 de abril de 2013



Ela vai chegar!
Jesus misericordioso!
Semana que entra ela chega, acabaram de me avisar!
Poetinha andeja que adquiriu tod'AQUELA belezura entre camelos e areias escaldantes dos desertos que ela mesma inventou.
A verdade é que o deserto é o pasto, o cerradinho magro onde ela espanta as horas caçando folhas de bugre, de preferência, as diuréticas pro coração ficar leve.
Eu estou que só Rute no paiol de espigas.
Asmática de alegria e com os nervos desassossegados.
Em tempo de virar romã e rachar por não conter-me.
Deus me acuda e seja louvado!

Um abraço em TODOS de ternura antiga.
Assim que ela chegar eu posto uma cantiga, uma oração ou uns troncos de cristal daqueles que dar sorte aos bailarinos, anjos e carvoeiros...

domingo, 7 de abril de 2013


Dias a fio eu e Brisa positiva dupla, embora sem uma parte. 
Preferidas pela cintilância de uma lembrança doce, engraçada e cuidadosa.
Eu e Brisa vigilantes feito as gansas de Capitólio. 
Mil cuidados e perguntas:
- Trancou o portão Mãe? 
- E a porta, tá bem fechada?
- E se faltar gás?
- E se meu pai não ligar? - (ele sempre liga variadas vezes)
Estranhávamos o silêncio da casa, a falta dos chinelos emparelhadinhos ao lado do sofá e, em especial o cheiro fumegante advindo das travessas que ele enche de comidas saborosas.
Finalmente chega a Criatura!
Revelando-se em novidades, cultura, alegria e cansaço na surpresa das horas.
Abracinhos ternos postados em certezas.
Até a velha hortinha, roída pelas formigas amanheceu de cara melhor e, todas as flores da casa ganharam uma cor durável de sentidos.
Conversinha de pilão, de companheirismo e projetos, da falta de chuvas no sertão nosso, das borboletas e cidades com futuro.
Nem abri o jornal. Seus olhos avarandados de outono nos encheu de notícia.

Feliz tempo de amizade e retornos.

"liberdade na vida é ter um amor para se prender".

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Vamos subir a ladeira 
vamos pra feira Neguinho
experimentar melancia
comprar tomate e cominho

Vamos pra feira Neguinho
tem viola e cantoria
tem leitura de cordel
soindenoiva* e poesia

Tem também manjericão
araruta, flor-cidreira
tem massa de mandioca e
galinha de capoeira...
volte logo viu Neguinho
Pra ir comigo na FEIRA


Para Reginaldo Poeta que de repente não mais que de repente 
virou o mais passeador da semana.

segunda-feira, 1 de abril de 2013




Hoje eu escrevo porque sou uma desesperada que acaricia as imposturas de certas vivências indigestas. Escrevo porque uma trêmula tristeza me descompensa, aborta-me em choradeira.
Escrevo porque a praça está cheia de lixo outra vez. Porque a mãe grávida do TERCEIRO  grita para o SEGUNDO 'calar-a-boca' senão lhe quebra os dentes.
Escrevo porque o consumo de objetos materiais continua sendo uma exigência para a Integração Social.
Escrevo porque dói, toda essa falta de poesia!
Porque em alguns momentos,  sinto como se não existisse mais bailes,  saraus antigos,  retratos na parede,  assobio do pai carinhoso que segura firme na mãozinha do filho pequeno.
Sinto como se houvesse sido extintas todas as cantigas das lavadeiras com seu cheiro gostoso de água e sabão-de-coco, rodilhas de pano, trouxa de roupa e pedras de anil guardadas na touceirinha de capim gordura.
 Parece não existir mais a casa que cheira a rosas de terreiro nem as quermesses de maio. Tá tudo tão seco, tão frio, tão pântano sem acorde que eu sinto-me como se fosse  uma vasilha velha de olhar caído, acocorada no pé do borralho  preferindo tecer esteiras com cipó fino tirado do brejo, a ser gente e, ter essa voz de sino grande que não serve para nada.

sexta-feira, 29 de março de 2013



Deve mesmo de ser AMOR o que nos forma parelha
eu continuo com este maldito déficit de atenção
entupindo a pia com talinhos de macarrão dormido
largando palanganas na banqueta
sapatos no carro
livros por todos os cantos
esquecendo os óculos de aumento
enchendo todos os risos d’agua
Ele não alteia a voz
não fica amuado
não dar UM pitaco
nem chama por DEUS
até vai a vendinha que eu prefiro
assuntar com Zé Coco se domingo tem peixe...

domingo, 17 de março de 2013

Poeminha avulso, feito indagorinha, sem postura, solto,
modestinho e roto. Incitado pelas postagens de uma linda e dócil Maíra Belintani.

Por causa dela 
apanhou pitangas de lampírios e maxixe bem maduro
desenhou escadinha caracol
esqueceu o tropel, a torneira aberta e as roupas no varalzinho de bambu
agonizou feito Cristo nu, numa cruz roxa sem pólen
rouquejou com os sapos e
assobiou para os ipês amarelíssimos...
Por causa dela fez-se célere,
emissário em trânsito etéreo
calçou as botas sete-léguas e caiu no mundo
cara de boi-fubá mofino e tomador de sereno
enfiando as canelas nas moitas de capim da praça singela
em busca da flor musa-malvada e noturna
que lhe deu estrelas, repuxos no peito e aguardamento
que o fez esquecer seu próprio nome e tremer na claridade baixa
de êxtase e silêncio...

terça-feira, 12 de março de 2013



Trinta e sete minutos com a irmã ao telefone e até esqueço que sou mamulenga mulambuda e amundiçada. 
Ela é de um lirismo comunicativo que sempre me valho.


Você acariciou as borbulhas de minha quietude
e juntos voltamos a planejar obtusos voos
na parede da janelinha adormecida
percebi tuas digitais
sinal que já viestes outras vezes
se eu não detivesse essa maldita porção cautelar
que limita-me a pecadozinhos indômitos
juro que pleitearia o paraíso de novo
com meu instinto de margaridinha silvestre
motivos íntimos e suspiro afagoso


Fomos para a Praça, Rua 15 e Calçadão.
Numa entrega amigável revalidamos a Literatura Joseense.
Poesia Sob o Sol  primeira edição
Porque amar também é portar a filosofia dos que nunca se arrependem
 por se envolver com ternura. (09/03/2013)


Este amor já virou sagrado
como o arco da promessa de ocre bordado 
pra durar...
D.Ruth Guimarães de novo não compareceu por motivo de saúde.
Mas valeu a penas pelas outras Maravilhosas Mulheres!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Uma resposta para esses DOIS Anjos de minha vida Vale Paraibana!



Desse jeito eu fico encabulada
Grão de bico em dia de colheita
Consciência e alma satisfeita
Xique-xique em tempos de invernada
Lata d’água cantando pela estrada
Flor do campo cobrindo caderneta
Canto doce num peito que se ajeita
Sentimentos guiados por sorriso
Amizade é TUDO que preciso
Meuzamigos, sem vocês, sou quase NADA!

Continuo pelos jardins com vocês
Cantorias, horta e pomares
Céu de lírios, abraços seculares
Pinheirinho, labores, escassez
Sonhos prontos e palmas toda vez
Que escutar poesia de primeira
Sou valente, criei-me na Trincheira
Escapei sem zangar o Paraíso
Amizade é TUDO que preciso

Meuzamigos, sem vocês, sou quase NADA!

Perdoem-me o excesso de vaidades, mas com gente comos estas, há quem fique sem contenteza?!

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Coluna Crônica Jornal de Caçapava: A Moça das Saias Coloridas.

(Jornal de Caçapava, 22 de fevereiro de 2013.)


     Zenilda Lua nasceu em Patos, na Paraíba, em nordestinos vinte e três de janeiro de 1971. Nasceu para a poesia, mas nunca fugiu de suas outras sinas, nenhuma delas. Mulher guerreira e batalhadora sabe viver a fina flor do que nos faz mulheres, secretamente entranhado nas linhas de sua escrita. Há que ler para entender.

    Em 1992, veio para São José dos Campos, veio para o amor, para o trabalho, para os amigos, para tornar o cinza mais colorido e mais vibrante como suas saias rodadas: elegantes e finas como sua arte. Veio ser a poesia que sempre foi. Quando nosso encontro extrapolou as linhas, tive a satisfação de participar de dias mais amenos, manhãs mais domésticas e fins de tarde pesquisados em nossos sonhos de trabalho revigorante, de descobertas literárias que não escapem ao humano, pois nós gostamos de gente. E, é difícil gostar de gente, é trabalhoso aprender a respeitar a diversidade, é custoso ver-se no outro, mas Zenilda Lua o faz tão tranquilamente, tão poeticamente, que às vezes fica difícil saber se algum dia, sequer, ela tenha olhado para a vida, tenha respirado o mundo sem o oxigênio lírico. Será?

   Sim, nós temos A Moça das Saias Coloridas e já não é possível imaginar essas ruas joseenses sem a cor de suas saias. Já não podemos supor as praças sem seus saraus, os encontros sem seus abraços, sem seus acalantos, sem sua disposição constante.

   Nesta cidade tão distinta, tão agigantando-se, uma migrante nordestina nos faz mais próximos, mais amigos, mais humildes em nossas angústias, mais fortalecidos em nossos sonhos. Nesta cidade que ‘anseiam’ tão tecnológica, ela, poetisa, nos oferece uma inspiração bucólica, cheia de perfumes, sons e agrados sertanejos. Tudo combina tão bem com o asfalto histórico simbólico que tão poucos... Deixemos...

   Há muito tempo venho tentando lapidar letras à altura da generosidade poética e humana de Zenilda Lua, não sei fazê-lo a contento; não me atrevo à crítica, não quis desistir; resolvi apenas prosear com sua poesia, reli, reli, reli. Na incompetência de lhe dizer o quanto significa para todos nós, recorro à suas letras, que jeito melhor?


Quimera 77

“Destilada a seiva
e a memória latejando o peito:
Pai, Bênção!
Pai, reza comigo!
Pai, apaga a luz!
E aquela voz de sítio molhado
chegava crua num assobio singelo:
_ Tô indo, Fia!”



Zenilda Lua é autora de Alfazema (2007) e Aparador de Quimeras ( 2011).


Sônia Gabriel


Décimas para Zenilda

 
Às vezes sinto a paz ameaçada
ao escutar discursos e sermões;
mas sei, também, dar belos safanões
em quem critica muito e não faz nada...
Eu tenho a alma desassossegada,
por isso é que festejo a ALEGRIA
que sinto ao receber toda POESIA
que chega dessa amiga tão valente:
Zenilda é verso puro, minha gente,

e vale muito mais que academia!

Mantemos nossos braços sempre abertos
pra Lua, companheira de jornada
que junto às flores faz sua morada,
enchendo de alfazema até os desertos.
Aos invejosos, digo: fiquem certos
de que essa minha amiga, todo dia
conduz a VIDA assim, com maestria,
é doce e não a quero diferente:

Zenilda é verso puro, minha gente,
e vale muito mais que academia!
P.R.Barja

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

domingo, 17 de fevereiro de 2013



Sofro de ouvir funk no volume máximo.
Fecho todas as portas e cortinas. Reforço à soleira da cozinha com tapete de cordas; não adianta. O som do purgatório (só pode ser esse) entra. Entra e me desatina. Entra pelos vãos da calha, pela frouxura do oitão, pelas veias da laje, pelo respiro das ripas e telhas. Entra pelo silêncio da horta, pelo beiral do vidro que protege a janela.
Não consigo ler, ver televisão, adiantar pesquisas. Não consigo nem conversar com a filha.
A tortura advinda dos quintais vizinhos invade o entorno, reforçando sintomas da decadência de uma parte da humanidade.
Para aliviar a exaustão auditiva só mesmo pegando a estradinha do Bosque, parando na divisa das pedras, afastando os gravetos, encostando-me no tronco do flamboyanzeiro e lendo Wandecy Medeiros: “Seguimos a canção” e a canção nos dominou. A canção nos obrigou a comprar, a gritar, a dançar, a pular, a rezar, latir, miar, grasnar, urrar e rinchar.
De repente o mundo se afrouxou e tudo virou vaselina. [*]

* Wandecy Medeiros é jornalista e escritor paraibano.