segunda-feira, 20 de março de 2017


De ontem

Desce um eito de água franciscana
marejando-me os olhos e a alma
coração sertanejo não se acalma
faz barulho de boiada no meu peito
alegria transbordou não teve jeito
vejo a seca morrer bem afogada
só quem anda na estrada empoeirada
entende o porquê do meu deleito.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017




Era uma orquídeazinha quase morta
só com duas folhas, sem perfume
deprimida por sentir tanto ciúme
da begônia que namorava o crisântemo
a levei com cuidado para um canto
e a deixei no tronco do manacá
dei-lhe água encorajei-a a superar
toda dor que lhe despertava o pranto
hoje a Ciça me chamou sem muito espanto​
apontando o cacho cheio de flor...

Tudo aquilo que tratamos com amor
resplandece, fica cheio de encantos!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Chegaram timidamente.
Ao clarear da terça-feira algo diferente acontecia.
Um desconforto palpável abaixo das costas, descendo "pros quartos", como dizia minha avó.
Pensei que fosse devido aos baldes de água reutilizável que apanhei da máquina de lavar para limpar a frente da casa e a área de serviço no final de semana.
Lombalgia se trata com pouco esforço, pensei comigo e voltei ao serviço sem exagerar.
Não adiantou. Fisgadas de parto normal envergava as entrelinhas de minha alma.
Dor. Dor. Dor.
Brisa, minha filha, no alto de sua sabedoria juvenil pediu para fazer uma massagem e advertiu:
Isso não é lombargia, mãe! É rins inflamado!
Pois era mesmo. A nefrologista estava sem brecha na agenda para me atender este mês. Mas o Clínico atestou.
Buscopan composto e soro foi mesmo que licor e amendoim.
Lembrei-me da minha mãe com suas receitas caseiras e curativas.
Água com limão e lasquinhas de gengibre antecipa a eternidade, ela sempre nos receitou.
Enchi várias jarras e copos. Bebi sem moderação.
Ontem não conseguia caminhar. Hoje danço até um forró.
A sabedoria carece de dor para crescer.
Não deixem de consultar um médico.
Beijo'Z no coração, cheios de razão terapêutica.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O trauma dos Aniversários

Na primeira infância não entendia aquele desafio ano após ano.
Intrigada de véspera apelava para os avós e tias mais próximas. Nunca alcançava a resposta certa. 
Minha mãe ficava bruta com minhas perguntas exaustivas.
Somente Tia Maria respondia-me num monólogo perpétuo:
- “Foi promessa”.
- “Promessa de quê, Tia? Promessa pra quê, Deus do Céu”?
Insistia com meus os olhos chorosos, sofrendo amiúde pelo cheiro da pólvora e o barulho dos fogos.
Nenhuma resposta vinha. Tia Maria silenciava sem dar brecha para eu esticar o assunto.
Todo dia Vinte e Três de Janeiro era a mesma coisa.
Meu pai soltava dúzias de foguetes enquanto minha mãe rezava um terço e cantava com toda a vizinhança uns hinos de agradecimento.
Eu morria de vergonha. Alheia e indisciplinada tentava fugir dos abraços. Depois do foguetório e da novena sempre era servido um café ou chá de canela com bolo de travessa, bolacha preta, doce de batata e broa de fubá.
Essa era a parte que eu mais gostava nos aniversários.
Com o agravamento do alcoolismo do meu pai e a depressão de minha mãe cessaram as rezas e o foguetório.
Nessa época eu tinha mais de dez anos e Jesus já era meu ajudador!
Trinta e sete anos passaram. Há duas semanas conversava com minha Tia Maria.
Refiz o interrogatório da infância e ela pacientemente contou-nos sobre a primeira filha de minha mãe. Eu não sou a primeira da prole. Nascera uma menininha antes de mim que veio a falecer num acidente depois do primeiro aniversário.
Com mais medo da morte assim que a mãe descobriu-se grávida, tratou logo de fazer um propósito muito comum na sua fé católica. Todo aniversário meu seria comemorado com reza e foguetório.
Deve ser por isso que evito sempre o alarde aniversariante.
Até hoje sofro com barulhos de fogos.
Sou grata a Deus pela vida. Sou até bem feliz. Tenho saúde, uma família linda e amigos amados.

Alegrei-me hoje por cada mensagem e desejos de bem.
Cada gesto de afeto e bondade.
Aprendi que todas as manhãs a gente aniversaria e quando se tem amigos por perto também se tem revoadas de anjos e ótimas garantias.
Sobre a dureza do tempo que nos envelhece, conservemos a poesia dos afetos sem anúncio de padecimento.
Para Todos, minha sincera gratidão e amorosidade.
Com beijoz sagrados serenados pelo melhor orvalho do Jardim de Deus.