terça-feira, 27 de novembro de 2012



Como pode ser tão múltipla
risonha, inquieta e faceira
cavoucadeira de feitos
pesquisadora certeira
professora, esposa e mãe
amiga mulher-rendeira...
Há dias uma fisgada na coxa esquerda.
Ortopedista, raioX, compressinha de água morna e nada.
Mais uma fisgada, fina, intensa, relampejada.
Cardiologista. Aferição da pressão arterial. Eletrocardiograma. Ecocardiograma e nada.
Virei agasalho puído e mofado na escuridão da cova úmida. Calada.
Mais uma fisgada no meio do cocoruto como dizia meu pai.
Aí meu Pai!
Deus seja louvado, na cabeça não!
Em tudo menos na cabeça.


 Perder o juízo é sumir depressa na aridez de um velho cano rachado.
Jesus misericordioso não posso ir-me assim tão despreparada.
Consulta marcada com neurologista.
Caule amolecido e vigília florescente.
É a vida, é a idade, as fadigas diárias, a cangalha rangendo no breu das rochas.
Amanhã tenho compromisso inadiável.
Quarta-feira tem Ciranda de Poesia porque românticos NÃO são poucos e, aquela casa "Ponto de Cultura Bola de Meia" vai  enche-se mais  de História.
Viva Sônia Gabriel!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012


Já havíamos comprado passagens, escolhido a roupa do dia, preparado o espírito para o maior encontro do ano e continuávamos;
eu e a irmã, negando a possibilidade de ida. Todas as desculpas cabiam nos telefonemas; hora  por conta do trabalho, hora por ser economicamente inviável, hora porque NÃO, ora!
Eles  faziam silêncio e, carinhosos, diziam  compreenderem o descomparecimento. Mas não entenderam quando aparecemos de surpresa no meio do salão branco todo enfeitado de flor e, estendemos os braços para o abraço mais despossuido de posses e mais festivo de toda essa vida. Lágrimas sinceras orquestraram aquele momento. O coração mais parecia boiada em galope que um músculo vital embalando o peito.
Estávamos os seis de novo envolvidos  pelo enlaçar do amor. O amor genuíno da matriz primeira. O amor que transborda, reveste, consagra, integra, reforça as batidas cardíacas e os pisões na unha do dedão. Justifica a colmeia bulinada com as pedras da coivara, a tapioca cozida no respiradouro da fornalhinha, o roubar das frutas de Tia Anália, os peixes do poço de Seu Zezito e nenhuma chinelada. Meus irmãos e eu, minha mãe e eles. O único sobrinho, as cunhadas, o cunhado, o Tio que nos deu de presente a primeira bicicleta. Minha alma de  beradeira voltava para o reflorescer do brejo (no tempo em que havia invernada) o milho embonecado e as outras safras descansando no paiol, o alpendre que cheirava manjericão e malva braba. O recreio no terreiro rústico, o ciscar das galinhas e a pintaiada. A leitura de cordéis, a oraçãozinha para o anjo guardião que o pai ensinava. - “Santo anjo do Senhor meu zeloso guardador” - ... e as humildes solidariedades. Tudo estava ali sobrepujando naquele salão branco enfeitado de flor.
A mãe deu o braço esquerdo à ele e caminharam suavemente para onde estava o Juiz. Os padrinhos também adentraram e a noiva que mais parecia uma princesa com hábito sereno, chegou pontualmente cheirosa a sorrir. 
Apanhada de sol sem conseguir fechar a torneira das lágrimas permaneci encostada na claridade daquela manhã, enquanto o responsável pela trilha sonora do evento, cantava aumentando a percepção das garantias divinas: “Nem mesmo o céu nem as estrelas nem mesmo o mar e o infinito não é maior que o meu amor nem mais bonito...”



quinta-feira, 15 de novembro de 2012



Há dias sofro de lonjura. Sofro de vontade bruta, profunda, cortante e única.
Há dias penso no menino que balancei na rede, que botei pra dormir, 
que dei banho quebrando a frieza da água do pote com água amornada na chaleira velha na casa da Vó. 
Mingau de arrozina em colheradinhas. 
Cantiga de roça invés de ninar. 
Nas primeiras leituras cartilha bordada e Pequeno Príncipe. 
Penso no menino de olhar suave e voz mais bonita de se escutar, que decretou festa em meu coração com suas notícias de coragem. Meu menino virou moço foi da Teologia a Filosofia, da Psicanálise a especialização mais elevada. 
Virou Mestre na categoria de AMAR.
Daqui a pouco esse menino emoldura o arco da promessa. 
Vai viver com um anjo de verdade a andará de mãos dadas, juntos enlaçados pelos canteiros sonoros de hospitaleiros jardins.
Eu fico por aqui com o coração marejando de emoção, desejando abraçá-los com a força maior que a alma pode guardar. 
Olhos cheios d’água e certeza: 
Se o correio não atrasou ao menos meu verso chegará inteiro aos olhos/ouvidos deles.  
Numa outra hora de posse e cheiros  declamarei o Soneto da Fidelidade, e numa rede avarandada de cor macia cantarei cantiguinhas de ninar e lerei estórias para o sobrinho, filho ou filha do meu irmão que não é mais menino... 
É de Rafaella!

domingo, 11 de novembro de 2012

De novo fomos para o parque com cantigas e poemas. A aceroleira carregada, as flores amarelas cingindo tudo, os manacás de cheiro e os da serra, carrapateiras cacheadas e colibris ... além de amoras,frutinha são caetano e o chilrear sonoros das sabidas Bem-te-vis... Os amigos também apareceram! Eita que festejança!




Nossa gente em poema e olhares! 
Ainda bem que os temos. Ainda bem!
Mirian Cris!
Feliz de quem tem essa criatura por perto...
Quando eles cantam os passarinhos ficam mudos...


Previnam-se!
Antes que seja tarde
A palavra ADEUS está dentro da SAUDADE (Réginaldo Poeta)

domingo, 4 de novembro de 2012



A mãe adquiriu uma gata.
Buliçosa, mais Alva que amarelada.  Deu-lhe o nome de Branca. Ativa e saudável vivia pulando nos pés de malva e bebendo água onde não devia.
A cada dois anos voltamos em casa para rever os familiares; mãe, irmãos, tias, tios, amigos e a primaiada que amo tanto. Ano passado resolvemos ir no Final do Ano para Patos. Passaríamos as Boas Festas por lá.
Tudo alegre, festivo e completo não fosse a mãe descobrir que a ceia de Natal seria na casa do irmão mais velho e que Branca teria que ficar só em casa. Queria porque queria leva-la no colo, ajeitar um cantinho no banco atrás do carro.
Com esforço de sol, convencemos a mãe deixar Branca em casa, no melhor canto do sofá ela assistiria o Rei cantar em tom azulado: “quando eu estou aqui eu vivo este momento lindo”.
Socializado o consenso. Após meia noite a mãe volta da casa do irmão com uma marmita de cor cheinha de coisas deliciosas para sua outra filha-felina e bem criada.
Passado o Ano Novo, as férias acabaram-se e retomamos o labor na grande cidade.
Por telefone a mãe dava notícias da Branca; ela está um mimo, dizia entre sorrisos. Vai aprender o beabá. Brinca sem sossego. Espanta as muriçocas e as largatixinhas do muro. Sobe no ponto mais alto do beco concentrada e atenta sem escorregar. Dar cambalhotas morde o próprio rabo e foge às emoções da juventude.
Aos olhos da mãe, Branca não podia engravidar.
Num sábado à tarde a irmã liga entristecida: Houve um acidente lá em casa. Os ânimos estão inflamados e doloridos. As lágrimas enchem os olhos da mãe. Branca veio a óbito sem quê nem mais.

Gata inzoneira! Facilitadora de agravos! Pensei na mesma hora... e liguei para a mãe.
-  O que aconteceu mãezinha? Foi morte morrida, envenenamento, foi tiro, batida de carro, pisadura de cavalo?
A mãe engoliu o choro e com a voz mais sentida do universo, disse-me: Foi traumatismo crânio-encefálico, morbidade imediata sem tempo de prática médica.
- Vixe Maria mãezinha pensei em dizer mas, fiz silêncio de morte do outro lado da linha com toda aquela descrição tecnicista. A mãe suspirava enlutada e condoída.

Branca foi buscar emoções da juventude no passeio de sábado. Pensou que o ponto mais alto do beco era um carrossel. Desequilibrou-se contrafeita e estourou o quengo na dureza da maior forquilha de concreto.
Levanta perna-mole! Vai assustar as joaninhas nos pés de manjericão e malva cheirosa, vai!
Nenhuma resposta.
A prima Eudócia, médica veterinária atestou a morte.
Branca jaz.
Já era...  “Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável. Aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra. Aquele fato sem explicação que iguala tudo que é vivo num só rebanho de condenados. Porque tudo que é vivo morre”.
Branca morreu brincando. 
Agora a compoteira e os copos de cristais da mãe, podem descansar sem trincas na bandeja prateada do armário bege, à mão de todos.

domingo, 21 de outubro de 2012




Meu pai agreste se foi bem cedo.
Minha mãe sem aceitar meus cachos recitou lindamente Vinicius de Moraes e Patativa do Assaré, benzeu-me a testa para aliviar cicatrizes.
Minha irmã bem sucedida na sua consultoria de modas continua ajeitando-me com seus xales finos e camisas de carestia.Quando se descuida eu a engabelo e volto para minhas estampas florais e brincos de capim-dourado. Guardo os xales e as camisas na gaveta forrada com papel de presente.
Meu irmão psicanalista clínico é meu escutador. Recomenda-me Lacan e como bom poeta que é já aceitou minha incur
ável doença de cavoucar palavras.
Minha cunhada Ph.D. em enfermagem também acode-me preparando dieta baixa em calorias e rica em abraços e fibras de açulos. Meu outro irmão chama a florista e a amiga fiel para as confidências. Minha filha complementa os ritos. Participa da migração e brandura outonal do vento para me favorecer com as nuvens. Meu amor prepara réquiens e bastante papel. Ele sabe que nesses dias “é brabo” e eu dou nos nervos. Viro um sol lembrativo de urgência própria. Há muito ele conhece meu cativeiro de saudade e prepara a mesa, cuida do peixe, considera as frutas. Espia-me encher uma taça de vinho demi-seco, sentar-me no batente da porta do meio para cantar: “ê, ê, ê Vaca Estrela! Ô, ô, ô Boi Fubá”...

domingo, 14 de outubro de 2012



Colo estrelas no teto.

Escapo ilesa. Três vezes a beira da morte por excesso de amor.
Sou uma recruta na tardança da pia batismal, espetando o fura-bolo na roda antiga do tear.

Há meses, prometi numa conversa corriqueira de portão, à garotada da rua que, realizaríamos em casa, um sarau para eles. Já havia acontecido outros encontros; feitura de lanche, trocas de livros, escutação de cantiguinha boa... Mas nada comparado ao recital de poesia puxado em suspiros na tarde de hoje na sala de casa.
Uma efusão de bem sem paga. Riso e silêncio, sol e paiol de estórias, livros folheados, disputados e lidos, autores conhecidos, palmas, bis e palmas!
Continuo tão menina quanto velha. Beradeira de roça a copiar versos no caderno de matemática.
Sou toda esperança humanizada. Melodia e conceito.
As palavras ainda que úmidas e impregnadas de sono não rolam num rio difícil, são invocadas por anjos que as soletram sorrindo e, as transformam em certezas.
Deus seja Louvado!

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Porque a esperança é mais teimosa do que eu...

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Meu graãozim de vento suave.
Ternura e valia de minha vida em Amor no máximo.
Meu jardim cheirando malva...
Hoje amanheci mais cativa do teu rumo.
Tua coragem de botar voz no poema do Ricardo Azevedo, revelou-me a seguridade de minha convic

ção:
Vens do veio das versagens do seu avô (meu pai aquele danado poético que nos deixou tão cedo).
Muito em breve, aposento-me e, só irei precisar de uma cadeira de palhinha estendida ao sol.
Chupando mexerica vou lhe escutar dando continuação as coisas que ele começou lá no tempo das rachaduras, das telhas represadas pela luz da lua.
No tempo das indiferenças treinadas para esconder sofrimento.
Oh filha! Definitivamente sou a mais feliz das criaturas viventes, pela simplicidade e beleza que vem de ti e, me transforma em festa diariamente.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012





Ela banhou-se nas águas mornas do Rio Amazonas, venceu tormentas e propôs mudanças.
Flor de gênio doce. Tece poemas com a graça, dor e fineza de uma menina rara, arteira e consagrada de paixão e zelo. Sem ignorar o quinhão de todos os pecados, ela segue desistindo de silêncio (Graças a Deus!), nos enternecendo de bonança e prumo. Altiva, como as damas talentosas, Dyrce Araújo é a própria poesia em estado natural.

Foi um lindo encontro de amigos. Conhecemos outros lados da Poeta nunca antes revelado. 
Fui agraciada com o convite. Serenidade e Bem sem finitude!

domingo, 23 de setembro de 2012




Deus seja louvado!
Pela família que me completa, pelos amigos que me consertam, pela correria que me cerca e por esta força que não falha.
Fizemos o penúltimo ensaio há pouco. Fernando Fernandes, Ronaldo Santos, Mirian Cris, Fernanda Fernandes  e Rossana Masiero.
Tudo se inclina para a contenteza.
Venham TODOS, se possível viu?
Quando vocês estão perto, só nos pousa riquezas.
bj'Z sonoros, cantantes e andejos.

sábado, 22 de setembro de 2012



No vão da fala os olhos. E o aprendizado se repete.
Essa criatura desanuvia tudo.
Esclarece, ensina, burila, lapida, apronta...
Venham Todos!

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Que minha loucura seja merecida de perdão, porque Deus sabe; desde que nasci sofro demais de Poesia!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

...Há um mundo mais possível e poético onde a boa querência reagrupa as formas naturais. Sarau Líricas e Prosas de São Bento do Sapucaí também está nesta empreitada com a gente! Venham todos...

terça-feira, 18 de setembro de 2012


Léo que ainda mora bem perto e, costumava atravessar o monte para ir ao córrego bento se enfiar na lama pra purificar-se.
Deu de fazer melodias adequadas aos momentos e cantar sempre bem bonito. Deu de abrir aço para inventar abraços, matizes e goles de luz que nunca inflama.
Sobre formas  bem construídas, palavras, bolhas e areia que adere ao pé, ele ergueu-se como prêmio de canção. Alma lavada e poderes de mundo. Hoje o Léo falará para nós, desatará os nós, contará de viagens, pérolas e asilos... Será?
Acho que não.  Contudo sou TODA ouvinte. Nem vou piscar bocejar ou coisa parecida. “A cada instante se cria novas categorias do eterno”.Estaremos na primeirinha fileira.

Bem dito tempo de brotação de flô e, amigos por perto. bj'Z em TODOS!

sábado, 15 de setembro de 2012


Enquanto alguns vivem roídos de dúvidas, outros se enlaçam formando um terceiro tom a que chamamos de aurora... Bendito
Jose Antonio Braga Barros que nos acode com essas posturas! Vamos todos; leiteiros, pãozeiros, diferentes e próximos... Não existirá pedra nesse caminho!
Depois que aprendi o idioma da chuva, escorei meu ninho no arco-íris e toco a chamá-la.
Mas a danada não vem!
Nem morta...
"Se ao menos o meu amor estivesse aqui e eu pudesse ouvir seu coração". Mas estou só, com esse estoque de céu a dependurar-se na minha alma andeja.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012


Amo tuas postagens antigas, tua voz  e a soltura da tua risada

Admiro tua falta de sono, de temor as tempestades e tua coragem de ir ao banheiro dezenas de vezes numa única noite.
Não entendo muito  teu apego para com as palavras: nuvem, formiga e outras coisinhas consideráveis.
Amo tua companhia e educação financeira (que sempre me salva).
Teu silêncio escorrido e teus passos no alumião das chaves.
Amo quando tomas partido nas minhas iniciativas e, ainda acredita que sou recuperável.
Olho para o céu e sei que nenhuma privação me foi concedida.
Olho para você e sinto uma vontade imensa de cantar
 “Seja luar, amanhecer, saudade vem e vai, amor é o que me levará a você”...

sábado, 11 de agosto de 2012

Cantiga de aluamento






Foi num mês de Primavera
que eu disse com alegria
Mãe, pretendo viajar 
daqui há quarenta dias
vou pra São José dos Campos
Conhecer mais Poesias

Tá maluca, endoideceu?
que invento  sem futuro
Que Campos, que Santo é esse?
Sossegue ou lhe desconjuro
deixe esse sonho pra outra
Oh conversa de monturo!

Mãezinha vou lhe dizer
não tem mais sossego não
eu conheci um Poeta 
a quem dei meu coração
minha alma meu destino
amor, pensamento e mão

Não acredito em destino
em doação corporal
e as noites de fogueira?
as quermesses de Natal?
as quadrilhas de São João 
cordel e festa rural?

Vai trocar nosso folclore
e Tradição cultural
por terra desconhecida
amorzinho de quintal
Pense um pouco, tome tento
vá declamar seu jogral

Guardei o jogral na mala 
junto as saias coloridas
um chinelinho de couro
livros e música preferida
Cheguei no mês de Outubro 
com frio mas, feliz da vida!

Foi assim que deparei-me
com pessoas fabulosas
gente simples, importantes
bons de causos, versos, prosa
viola, teatro e canto
Oh terra maravilhosa!!!!





terça-feira, 10 de julho de 2012


Graciosa a tarde de sábado nem boceja, chega pronta e sonora. Com cheiro de serra, queijadinha e pão de queijo.
Estamos em quatro e fala-se de política, amores, decotes, filhos, literatura, ciúmes, flores e outras coisinhas que encandecem.
Um escambo de livros é realizado em plena via Dutra. Eu fico com Os Últimos Dias de Baudelaire, Sônia Gabriel prefere o Ciranda dos Tempos, da Beth Brait, Pércila desiste de um filósofo  que fala sobre Os Malefícios do Amor e Dyrce é a detentora da sacola cheia de exemplares.
Nosso ponto de parada é o Espaço Cultural  “Projeto Fazendo Arte” em Tremembé. Conceição Molinaro, nossa anfitriã, nos espera na calçada, sob o trinar gotejado de papagaios-da-floresta ou gangarras como também são chamados. Com maestria, eles se aprumam nos galhos mais altos da árvore centenária, que fica em frente à casa de Artes.
Crianças, jovens e adultos participam de diversas atividades educativas socioculturais; música, dança, artes plásticas, literatura. Seiscentos alunos e um temor: A mudança do poder executivo na Municipalidade. Nestes tempos de eleição, tudo pode ocorrer, inclusive a desimportância para com projetos como este que a Conceição idealizou e pratica.
Tomadas pela afetividade da acolhida, fomos levadas por  impensáveis delícias, advindas de quem conhece os teares da delicadeza, dos gestos solidários e da humildade. De quem não suspende os acordes da arte-cultura e fez do Vale um pouso fixo e bonito de ver.


Um micro-ônibus nos leva pela estradinha bucólica. Enquanto Conceição segue contando  a história dos Monges Trapistas, dos  campos de arroz que se vestem de dourado na época da colheita. Passamos pela ponte de ferro que corta o ressono do Rio Paraíba. Paramos na igreja do Berisal. Nossa Senhora do Berisal, uma graça,  cercada de anjos, de galinhas poedeiras, maracujás madurando na cerquinha viva de madeira em flor.
Pausa para foto e para ouvir mais histórias do Mosteiro, contadas pelo moço que conserta telhados cujo nome esqueci de perguntar.


Nosso passeio, de tão prazeroso e rico, mais parecia antecipação de céu. Na bica da Água Santa, pensei na Brisa e  desejei  que ela estivesse comigo. Na igreja do Bom Jesus, apreciei as esculturas lindas do  apóstolo Pedro, com suas chaves recostadas ao peito e  do preferido de Jesus, João, com sua espada a proteger a praça, as crianças e o carrinho de pipoca.
Não resisti e falei para a moça pipoqueira: - Quero o maior e sem queijo, por favor. Ela segurou os dois reais, entregando-me o saco de pipoca com um sorriso mais cheio de tempo do mundo. Comemos felizes eu, Dyrce e Sônia que também  fotografava a porteirinha do casarão vizinho à igreja,  bordado de azul e branco, dormentes repleto de estátuas.
Deus é mesmo muito acessível eu pensava chorando, enquanto ouvia a orquestra. Maestro Levi cheio de ritmos e cuidados conduzia aqueles jovens por caminhos decifráveis, enfeitando cada pausa com uma emoção que nos levava ao infinito.
Aqueles jovens não serão apreciadores de pancadões. Não serão molestadores de escrúpulos alheios. Serão multiplicadores, estimularão a comunidade para o fortalecimento do protagonismo, empoderamento e emancipação socioeducativa e cultural.  Pena que os representantes do poder não conseguem enxergar essa importância. Meus pensamentos não se calavam.


Depois da musica, fomos para um salão lindo, com espelhos largos.  A mesa  repletinha de culpa e delícias: toalha rendada de alvura ímpar, bolo de cenoura com cobertura de chocolate amargo, bolo de fubá cremoso, chazinho de diversos sabores, café passado naquela horinha. Suco de maracujá, pão de queijo, biscoitinho de manjar, flores e água.
Começou uma conversa animada,  histórias de vidas, planos, lágrimas,  presentes trocados na hora da saída. Mulheres com suas rimas e sonhos, entusiasmos, cheiros, encantos, desejos e sensação de borboleta colorida. Que venham outras tardes daquela com Dalilas e Querubins. Metáforas, identificações, estradinha de terra e esboços de bom futuro.
Sobre o som da  espera, Conceição, estamos aqui, com a casa e alma aberta para você e os teus. Venha, viu?


*Todas as fotos foram tiradas pela Sônia Gabriel.

terça-feira, 19 de junho de 2012






Deixei de arrumar a casa nos dias de Segunda-Feira. Não sofro mais com o desalinho da mesa; silenciosa, amável e repleta de livros. Artigos, moedas, óculos, fone de ouvido, chave, pilha recarregável, fita –de- cetim- vermelha, pote de plástico com bolo de fubá que a sogra fez, lápis preto, dicionário, brilho labial e, cesta de frutas. Observo tudo com zelo de oratório. Já não adoeço mais. Uma safra de serenidade aliviou-me as palpitações ofegantes que no apoucar da outrora me cabiam. CadaCoisaEmseuLugar! Pelo-amor-de-deus-misericórdioso! Eu dizia em meio a ataques de cólera, desespero e inquietações cardíacas.
Uma perturbação líquida inundava meu ser. Bastava ver a esponja de lavar louça fora do porta-sabão.
Guardava com afinco a angústia dos incontestes ao ver uma folhinha  de samambaia espiralada ao chão da garagem. Sentia o peso dos que não chegam a tempo. Morrinhenta, cheia de retórica e pecado, mais parecia uma topografia opressiva que, geme baixinho só de ver um copo em alhures.
Aí meus fuxicos de terreiro, minha rédea de cerzir coração desafamado. Tagarelice de comadre e segredos de mato escuro valhei-me!
Jurei que melhoraria e, deixei-me ser regida e confortada pela ciência de que, nem sempre posso ser de esmero e cuidados, de bonança e razão, de trabalho e eficácia.
Sou é de monturo, loucuras, ócio e mal cheiroso galho. Consumista sem excesso, mas, sou. Cruel, avarenta, bicho de cafundó, mafueira, baba-de-boi porejando cercas.
Fiz um pacto com a mesa. Ao menos nas Segundas-Feiras deixamos que fique assim; circundada pelos bastidores épicos da fragrância andeja de Sábado e Domingo. Incitada pela desordem que burila a lucidez, o soletrar dos anjos, a vasilha de cocada, a flor cor de goiaba que, nasceu na beiradinha do poço, o som do Vinicius vindo de um canto da sala: Na Tonga da Mironga do Kabuletê...e assim por diante.

domingo, 10 de junho de 2012


Tempo de cerração, experimentos, concessões, rupturas, estudos e aspereza.

O sapato não é novo e os pés recriados calejam.
Procuro concentrar-me nas primícias do tecnicismo mas, logo vem essas cigarras bailarinas, as tigelas de doce, as grades com begônias coloridas, as janelas e samambaias vivas, as conversas amenas, o alvará, a cuia, o frasco de água cheirosa, o paraíso de medonhas carícias... 
Aí meu Deus, estou pecando de novo! 
Vazam satélites pelos meus olhos. 
Me acode Deus me acode. Perdoai as sombras dos meus ossos fracos e, abençoe-me se possível, mesmo com raiva nas alturas ou, em forma de cansaço. 

sábado, 12 de maio de 2012

26 de Abril de 2012

      
Salvaguardei-me na apólice das franquezas
 estou borboleta de colar de contas coloridas e, asas bem compridas...
as perguntinhas queixosas de curral e valentia
já não atolam mais as lajotas do meus sonho

domingo, 29 de abril de 2012


Uma pessoa do nosso meio, cuja estima é relevada,  explicitou revolta em relação aqueles que se intitulam Poetas sem o ser. Não estudou Arthur Rimbaud, desconhece Ana Cristina Cesar, Claudio Willer, Torquato Neto, Fernando Coelho, Maria Firmino dos Reis, não sabe lidar com rimas e metáforas? Não pode se intitular Poeta!


Senti a responsabilidade de responder a esta querida pessoa. No começo ignorei mas, depois que vi Leonardo Boff, bem de pertinho, que pedi benção e dei cheiro na sua barba branquinha e sedosa, não sou mais a mesma. Não sou mesmo. Desde terça-feira 24 de abril de 2012 ganhei mais responsabilidade. Etimologicamente, responsabilidade também significa necessidade de dar uma resposta a uma proposta.  E já que estamos condenados a conviver nesta nave-mãe Terra, de sermos preconceituosos, arrogantes, invejosos, exploradores, mesquinhos,  falastrões e cruéis não há outro jeito; ou nos irmanamos ou contestamos.
Também fui burilada a martelo e talhada na pedra bruta, sofri um bocado no principio mas, depois aprendi que, estabelecer tolerância é a forma estratégica de defender a pluralidade.
Estilos de vidas, formas literárias, códigos de conduta, escalas de valores e opções diversas estão no mesmo nível. Tanto aquele que sabe fazer versos lindos, quanto o que escreve coisa-ruim- demais-da-conta merecem viver.
O trabalhador, o ocioso, o sábio, o simples, o esperto, o alienado, o artesão, o lírico, o insuportável todos são igualmente importantes. Ambos convivem, representam valores e, mostram que ainda deve haver  possibilidade de melhora.
É claro que existe os mais excêntricos, excessivos, repetitivos, lustradores do próprio ego. “Para cada tipo de razão um território e uma valia”, concordei com meus botões de casa afrouxada. Lembrei-me de uma citação que meu avô gostava: as palavras DURAS incitam a ira, as BRANDAS dissipam o amargor. Com o advento do google na minha vida,  foi que descobri o autor da frase: Confúcio.
Outro dia estava aplicando um teste numa dinâmica de grupo para jovens e, uma das participantes pediu-me ajuda. O grupo não sabia de quem era a frase: “Tu te tornas eternamente  responsável por aquilo que cativas”.
Fiquei indignada. Como assim não sabiam? Especialmente ela que, é filha de socióloga e motorista leitor, que eu bem conheço os pais!
Não conhecer o Exupéry? Impossível uma coisa dessa!  Arrogante e pretensiosa  dei dicas de leitura, e falei onde poderiam alugar o DVD com a história do Pequeno Príncipe.
No final da dinâmica acontecia um sarau e, onde cada um, se desejasse, poderia  demonstrar suas habilidades. Fizemos um grande círculo no meio da sala e apareceu tocadores de gaita, capoeirista, assobiador, fazedores de brigadeiro, dançadores de rua, leitores bilingues, skatista e até uma garota de mechas azuis no cabelo, boca cheia de dentes e bochechas rosadinhas que, nunca lera o Pequeno Príncipe mas, sabia fazer com papel colorido lindas libélulas de jardim e passarinhozinhos graciosos. Fez dezeninhas delas em minutos, dobrando o papel de forma ágil e assertiva. Generosa, nos presenteou com sua arte e eu fiquei mais certa que,  a vida não precisa ser um vale de acidez, mazelinhas amarelas, um de cada vez. Vamos juntos! Podemos transformá-la numa casa comum, de quintal colorido e flores de cheiros, desfrutada pela convivência humana e bondade de todas as coisas.
Tudo o que vive merece viver e, “se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três começarei a ser feliz”.


Beijos de conduta terna e que Deus continue nos conduzindo pelos seus caminhos de preferência.


As catorze e trinta desse domingo chuvinosinho, estaremos nos reunindo na Capela do Jardim Colonial com a Mulheres do Pinheirinho.

sábado, 21 de abril de 2012


Essa escassez de postagem significou lampejos diversos.
Saraus, cirandas, rodas de leitura, semana da saúde, cuidados com a filha,
Saudade de irmãos.
Conversinha fiada e tempo de delicadeza...
Vou voltar. Haja o que houver eu sempre volto.
Mesmo com pernas reumáticas e coração de ladrilhos, chama exausta na alma
e olhar macerado de incêndio... Estou voltando!

Eu te perdoo por deixar os chinelos num canto impróprio da sala.
Por ter escolhido esse piso cor de amor se amarelando para nosso quintal.
Te perdoo por não suportar meus incensos,
por levar as flores à garagem alegando que o perfume aflige a proximidade dos assuntos.
Perdoo-te pelo cochilar estático e repetitivo da bolsa de trabalho na ponta da mesa e,
TE AMO pelas dobras dócil de sua conduta,
pela sonoridade de todas as músicas escolhidas,
por guardar-me em segredos e esquecer de me entregar o presente de Natal.
Te amo pela confiança, andejos e permanência.
Pela escolha do alho, das frutas e textura do arroz.
Pelas pretensões, desapegos e facilidade aos acessos.
Te amo a ponto de atravessar o universo guardando nas duas mãos a brandura dos teus olhos
e, de pedir a Deus que me pregue na cruz, me queime em fogueira mas nunca NUNQUINHA mesmo
destine-me para longe dos teus cuidados e desejo.

Além do por do sol, outras mini luzinhas e calmaria... para o Poeta Dailor Varela


... Com ele troquei cartas, farpas, abraços, pedidos de amor e receitas de vinho.
Às vezes o achava medonho, desalmado e pretensioso. Na maioria, o MÁXIMO e, ele sabia.
Ainda era segunda-feira bem cedo (20/03/2012) quando recebi o desalento pela notícia de sua internação.
A inscrição no Conselho Regional de Assistência Social me dá garantia de entrada em locais restritos, especialmente Hospitais.
E foi lá que entrei com o coração aos pulos, em meio há tantos ele era ÚNICO no salão das emergências.
Chamei-o pelo nome, acariciei lhe a testa suarenta.
Ele reagiu com um olhar demoroso e palavrinhas curtas, incompreensíveis para, em seguida cair num ressono.
Seu quadro de saúde ainda era estável, “requerendo exames e cuidados” assegurou-me a enfermeira responsável.
Iniciava-se ali um tempo vigioso de incertezas e espera.
Em horas alternadas passei a visita-lo quase todos os dias.
Do setor Verde foi transferido para o Vermelho, o que evidenciava agravo e intensificação dos cuidados.
Contei sua história para equipe médica, Assistente Social e estagiária. Sua importância para nossa literatura e poesia.
Os dias seguidos ao AVC, doses elevadas de antibióticos, desconforto respiratório e descoberta da diabetes,
embotavam-lhe os olhos e, ele no seu sonho florejado de menino birrento que empurra o portão de pinho no paraíso, deu de não reagir aos estímulos. Aquele tiquinho de céu em plena terra cansou-se das agulhazinhas diárias e aferições.
O corte pequenino no pescoço, também chamado de traqueostomia, anunciava o mandato que não admite réplica.
Ele, que era entre os CEM, um dos MELHORES não melhorava e,
decidiu que no domingo (15/04), antes do almoço, ia mesmo encontrar-se com os pais no jardinzinho deles, cuja varanda dar para o poente e, fica de costa para uma bica de taquara, onde redes coloridas do Nordeste dão cheiros e, ficam balançando ao vento.
Tem ainda uma porção de pés de flor enfileirados.
Vaga-lumes e “anjos esbeltos desses que tocam trombetas”, borboletas e colibris, fazem parceria com outras delícias.
Dizem que por lá, nada é temível e, tudo é partilhável; luz, árvores, estrelas, água, coração e saudades...
É bem provável que por essas horas nosso Poeta maior esteja cantando para nós bem assim:

“No novo tempo, apesar dos castigos, estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos.
Pra nos socorrer, pra nos socorrer”.

Acenos poéticos desse povo aqui, Mestre!
Lembranças que marejam o mais seco dos olhos e, uma boa querença danada de grande.


Ela continua compondo meu divino quadro-família.
Sou de cochilos e cachos, ela é vaidosa. Sou toda coração, ela é exata. Gosto de escrever e ela de dançar.
Continuamos parceiras como no tempo que cuidávamos da fazenda de flores.
As minhas eram brancas, amarelas e azul bem dormentinho; flor de malva, bogari, nove horas e alfazema.
As dela tinham cor perpétua e absoluta; flamboyant, carmim, girassol e açaí vivíssimo.
Eu só tinha medo de alma. Sofria contrita olhando as estrelas de claridade baixa.
Ela temia papafigo e, Zé Biró, doente mental que era filho da mulher que pegava menino.
Só bem depois viemos saber que, essa história de mulher que pegava menino era porque a mãe de Zé Biró, D. Leondina, parteira.
Minha irmã é uma orquestra de sentidos.
Corajosa moça de honestíssimas pétalas.
Corta o pé nos cacos, mas não tira o salto.
Nunca falta ao serviço, nem se aborrece quando adio o depósito das minhas promessas.
Quando espremem seu coração viro uma fera aflita.
Agachada na tocaia do sereno nem respiro, só penso em pegar minha espingardinha de soquete e, brincar de cobrir o coisa-ruim com folhas mal cheirosas e segredos de senhas.
Minha irmã é uma extensão de tudo que é favorável.
Repara minhas vestes, e joias de miçangas advindas dos tabuleiros hippies.
Tenta me ajeitar com seus xales finos, suas camisas de carestia e calças de marca que encobrem a brancura fina de minhas canelas.
Vira as costas eu a engabelo. Volto para minhas estampas florais e brincos de capim dourado.
Ela esquece que nasci no tempo de porta-pote e, que ainda sento no cepo de peroba escura que, virou cadeira na sala de casa.
Invés de abajur escolhi luminária de vela amarela com roxo nas bordas, coberta por sementes de cravos, casca de laranja cheirosa e pau de canela.
Minha irmã é uma dádiva. Meu insetinho da sorte.
Seguro no seu braço direito com as duas mãos de cuidados, como na infância irmãzinha e, na parte mais limpa da alma lhe guardo diariamente.
Temos sonhos comuns, gostamos de jardins.
Quando a mãe lhe punha para tomar sol, acomodadinha num cesto que parecia berço, eu ficava inventando que as florzinhas de pereiro que, sombreava o terreiro, falavam contigo e, você punha-se a sorrir com minha fala de raposa espavorida:
“ Faz cara de feliz menina banguelinha, faz cara de feliz...” e você fazia.
Por obediência natural ao esquecimento, não te lembras mais destas passagens. Não faz mal, eu as reinvento. Pois me falta talento para esquecer.

terça-feira, 6 de março de 2012

Faltam apenas 03 dias para a Segunda Edição do Nosso Sarau e, já começo a sentir aquela corcegazinha vagalumiosa. Escrever sobre estas MARAVILHOSAS MULHERES foi de responsabilidade ímpar e deliciosa.
Ler suas obras foi inspirador. Estou muito mais possível de encantos. Isso sem falar dos HOMENS que, irão homenageá-las.
Venham todos! É gratuito.
Teremos abraços bem apertados e, outras coisinha pra lá de gostosas.




quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

domingo, 19 de fevereiro de 2012


Foi numa tarde sem cura, minha porção materna levantou-se da zona de conforto e adentrou naquele espaço que, mais parecia uma perturbação esquizofrênica de longo alcance e altura.

O dia anterior tinha sido de expulsões, estampidos de bombas, prisões, barulho de helicóptero, longos telefonemas, dor e muitas lágrimas partilhadas com amigos, em especial Paulo Barja.

Era 23 de Janeiro, o ano mal havia começado e, estávamos ali, eu e minha filha, buscando uma resposta, um alento por mais tênue que fosse para abafar tanta agrura.

Em aguda situação o silêncio é balsâmico. Mas aquele não era. Era infinitamente doedor.

Voltamos para casa. Eu estava disposta a enfrentar pelas crianças e idosos, os mais danosos cães. Recorri ao ECA, artigo cinco explicitava: “Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, descriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei, qualquer atentado por ação ou omissão aos seus direitos fundamentais.”

Meu Deus! Todos os direitos foram violados e continuavam sendo, ali perante nossos olhos mornos!

Maldisse os governantes, os líderes, a ignorância, os assuntos de Leis.

Não calculei o preço mas, quando percebi que seria incapaz de conseguir sozinha, rebusquei amigos, reparti o leme e o barco seguiu repleto pela autenticidade dos atalhos.

Logo a garagem de casa encheu-se de caixas e sacolas. Biscoitos, meias, moletons, lençóis, camisetas, panetones, bíblias, carrinhos, gibis, prendedor de cabelo, fraldas, garrafas de café, porta-sabonete, chinelos, remédio pra piolho, analgésico, pirulito e itens relevantes de utilidades diversas.

Em duas semanas virei carreteira, madrinha, irmã de solidão e afeto, conselheira, ouvidora, portadora de recados e pedidos, entregadora de lanche da tarde, acompanhante de enfermarias.

Até que os meandros racionais inflamaram-se na sala de estar. Meu par apontou-me que, a razão é um sol impiedoso; ela ilumina, mas, também cega.

Foi decretado insatisfação pelos meus atos e opção. Vislumbrou-se a concepção que eu estava agindo de forma ridícula e atavicamente assistencialista.

Restaram-me os soluços, o abraço da filha e as centenas de pedidos guardados na bolsa.

Uma semana passou e, consumida pelo ardor da impotência, reativei minha subjetividade, minhas referências e princípios, o lugar mais íntimo onde o meu “eu” sobrevive.

Convenci o amor que minhas ações eram carregadas de histórias, razões e motivos, que minha opção tinha um caráter sacral. Pois minha alma também fora feita a machado e, talhada na pedra bruta. Carecia dessa possibilidade, de estar com o meu próximo segregado invisível e sem futuro próspero. Somente assim não corria o risco de ser sequestrada, de me perder do cordão que me costura a mim mesma.

No dia seguinte voltei a encontrar Clarinha, Seu Pedro, Vitória, Sara, Ana Cristina, Pedro Augusto, Seu Antônio, Alaíde e Dinorah e tantos outros que me ensinaram e ainda ensinam; “o tamanho da flor não modifica a sua condição essencial. A flor será sempre uma flor, mesmo que pequena”.

Continuamos indo, eu e minha filha, aos abrigos onde seguem alojados dezenas de ex-Pinheirinhos.

Muitos receberam o aluguel social e conseguiu alugar uma casa, outros a Defensoria Publica precisou intervir. Alguns buscaram o quintal de parentes, compadres, amigos. Alguns conseguiram empregos, outros estão à procura. Alguns ficaram doentes, outros foram embora para a terra de origem. As crianças estão frequentando as escolas. Uns sorriem outros permanecem quietos. Uns pedem chicletes, outros chinelos e, assim prosseguem suportando a aflição da existência.

Não deixarei de ir vê-los, pois o que não é percebido não existe. Ou seja; o que não for notado e distinguido, perde a efetividade.

zenilda lua