quinta-feira, 27 de junho de 2013



Estamos na estrada da ponte
olhos pregados nas portas da fé
e água de coração 
escorrendo pelos olhos...

sexta-feira, 21 de junho de 2013


"Numa folha qualquer eu também desenhava um sol amarelo".

Hoje não desenhei. Amanheci com um sentimento de contenteza descontente. Um misto de desvanecimento e cuidado.
Abaixou a passagem. Abaixaram as bandeiras. A cidadania foi exercitada.Perseguimos a marcha até a descidinha da ladeira, mas ficou aquele eco espinhoso de hibridez; palavras sem sentido, emoção e vidros. Ficou o Drummond feito um pirralho oportuno a cutucar meus tutanos: "Você marcha José, para onde"?
Seu Pedro não marchava. Ia de carro com o filho e a nora Antônia à um Hospital conhecido na cidade de São Paulo. Finalmente um doador e o tão esperado (há 03 anos) transplante de órgão seria realizado. Seu Pedro chorou quando viu a Dutra empatada. Sua pressão arterial se elevou a ponto de ele sofrer um AVC moderado.
Ouvindo esse relato no segundo atendimento da manhã no plantão social tentei amenizar meu vazio pensando nas análises que Marx e Engels fazem no Manifesto.
Falei para minha filha o quanto precisamos ler mais Sartre, Marilena Chauí, Erick Fromm... deixar a tv desligada.
Precisamos entender a alienação do homem em relação ao homem.
Precisamos estudar mais política. Legitimar nossa querência, nosso brado. Exercitar a arte de argumentar.
São tantas reivindicações, tantos desejos para tão pouco diálogo meu Deus!
Tanta inflação de egos!
"Mesmo a árvore mais desatenta cuida da estrada".
Não cuidei da nossa.
Quero me aquietar mas a esperança é muito mais teimosa que eu.
Paulo Barja, adorei seu poema!
"Abutre é mesmo traiçoeiro".

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Minha Filha!
Antes eu guardava teus potes de guache vazios, os tocos de lápis, as tirinhas sobrantes das cartolinas de cor. 
Chegava a ouvir tua respiração. 
Entregava-te aos anjos que também migraram para melhorar os sonhos. 
E só descansava quando tua voz devolvia a alegria da casa que em silêncio te esperava.
Amanhã não descansarei. Depois do Plantão Social vou pra RUA contigo e com todos os outros de PAZ.


Mais uma vez a Literatura valeparaibana esteve inserida nesse importante acontecimento. 
Espaço Cassiano Ricardo foi nossa casa-abrigo, nosso jardim, nosso riacho cheio de contenteza.
Somente quem desceu a ladeira da principal rua da cidade, escoltada pela Guarda Municipal sabe a importância desse contexto.Alumiamos o indizível. 
                                Foi mesmo uma festa de palavras acredoce bem valeparaibanas!


terça-feira, 11 de junho de 2013

Entre mudança, flor miudinha e outros ocasos.




Por cinco anos no mesmo horário abri a janela de madeira grossa, pintada de bege com gradinha protetiva azul.
Aberta, era como um bom vinho. Enchia-me a alma, adoçava a vista. Os canteiros de rosas na avenida estreita, os ipês enfileirados, os flamboyanzeiros, os quero-queros e os bem-te-vis desafobados, ensinavam-me que “o mundo não é limitado, nós que o reduzimos por preguiça de enxergá-lo”.
O elefante branco, antigo prédio em frente à janela, na sua mudez de alvura até parecia um sobrevivente satisfeito com a alforria do borboletário e também com a corrida dos recrutas em suas cantorias ritmadas: “Sou soldado da Pátria/ Meu Brasil vou defender...” E todos repetiam: “VOU DEFENDER” com voz de fortes.

A luz da paisagem que eu via também era de passagem e, eu sabia.
Sabia que num desses dias ao amanhecer, receberíamos a visita da Ana, do arquiteto Luis Carlos, do Engenheiro Rogério e do Amarildo, o mais ágil pedreiro que usa boné propagando a Texaco.
Projetei minha ausência com ritual e zelo. Obedecendo a ordem harmoniosa de despejo, aliviei o espaço.
Os meninos do setor financeiro apareceram em trio; Reinaldo, Vinicius e João Victor. Com disposição traziam a força dos que chegam a tempo e, cuidaram de transferir a apoucada mobília; um armário de aço, um outro de cor azulada, o extintor de incêndio, três pares de muletas e uma bengala foram todos parar na sala vizinha. A mesa, a cadeira giratória, o vaso de argila com lírio raro, o quadro mural verde com informes-recados e a placa de Assistente Social, o Antônio levou para o novo setor; uma salinha estreita e desavisada, com porta para a rua e sem qualquer moldura para enfeitar a sonolência das paredes.
Meti a esperança na primeira gaveta e lembrei-me das causas que nos estimulam  a amar o novo.
Arrumei a violeta no beiral, a garrafa d’água, o telefone - que agora tem fio-, a impressora, o calendário, o porta-lenço e o aparador de canetas. O computador, os livros, a bíblia e a foto em família.

Já estava quase na hora do almoço quando ouvi as cigarras no açaizeiro. Fui até a porta e vi o manacá entre as pedras cheinho de flor. Julguei-me dona dos ventos celestes e dos risos de Serafins graciosos. Tudo estava certo especialmente pelo jardim das cigarras. Meu avô dizia: “quando há cigarras a festa está bem perto”. E a festa está perto de fato, bem na minha frente beirando a calçada.

Zenilda Lua

domingo, 12 de maio de 2013



Ela me chama de Mãe e protege-me com suas cantigas, orações, leituras midiáticas, pedidos  e  risadas de engraçamento. Eu metade gente e metade  taquara coberta de musgo retrançado sempre caio nas suas conversas e me desconcentro de tudo que é sério. Declamo poemas, invento paródias, cantoriazinha de renovo. Vamos à cozinha;  preparo hambúrguer de soja  ela corta  abobrinha pro  refogo. O arroz fica pronto, a alface lavada, o amor e os sonhos se misturando num céu de futuro.  Vai chegar um dia que a ausência dela vai encaracolar ainda mais meus cabelos desgrenhados, vai fazer do meu coração mil cacimbas de saudade, vai cavar meus olhos até desbotarem com a água salobra que a chuva não faz.
Aí, aí viu?
Mãe cativa, manquitola, querendo prender o tempo numa fragrância encantada, para quando precisar do invisível encontrá-lo na brandura de todas as  razões. ..
Especialmente na flor pro cabelo adormecida sobre a banqueta do quarto ou do abajur da sala.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Travesseiro dos meus braços




Molecota e primeira de uma prole de seis, eu dava de botar reparo na mãe. 
Na curteza dos tempos, aparecia  à criatura barriguda de  novo! Umbigão sobrepujando na encosta da blusa de malha listrada.
Decretada a feita, eu tinia de raiva. Permitia-me silêncio de morte por várias semanas sem a menor paciência de aturar outra vez os enjôos até pelo cheiro de coalhada e, os longos cuidados, caprichos, repouso na normalidade do processo pós-parto.
E, lá ia a mais velha magricela no amiudar das horas, cuidar da pequerruchadinha, balançar na rede, acordar bem de manhãzinha, lavar fraldas de pano – tirar aquelas coisinhas gosmentas, esverdeadas e mal cheirosas sem engulho, era de tudo impossível! Eu engulhava até ficar tonta, mas prosseguia. Depois lá ia a mamulenga cautelosa quebrar a frieza da água para banhozinhos amornados na bacia branca de ágata. Imitar os piados da passarinhada, inventar cantigas e toadas sem nenhuma vocação, só para distrair aqueles tiquinhos de gente agalegados, olhos puxados para o mel mais claro e cabelos amarelinhos feitos cor de milho novo. Dava até gosto a robustez das bochechas e a brancura dos  bumbuzinhos cheios de talco barato e, beliscãozinhos que eu mesma dava levantando suspeita de infinito amor.
- Cadê a broinha que tava aqui? – eu dizia cocegando  a mãozinha rechonchuda que me agarrava aos cabelos, encolhendo o corpinho na maior risada. –  
- O gato comeu foi?
-  E cadê o gato?
- Saiu por aqui, passou por aqui, descansou aqui e...
- Achei o gato! – eles gargalhavam e, eu aproveitava para estender a porção alimentar: mingau de araruta em colheradinhas... Comiam tudo até arrotar num suspiro doce.
Eles eram meu recesso, minha aflição nascente, minha privação de arbítrio, meus desvios de infância e brincadeiras. Mas especialmente eram meus anjos sem andor, meus motivos de altos risos. Minha roda de conversa, minha música e terapia. Eles eram meus brinquedos saudáveis, minha testa suada, meu coração cheio de fitas e filó.
Nunca ficavam doentes. Nem de catapora, nem de sarampo, rubéola, dengue, caxumba, fadiga. Nem por falta de vacinas. Febre, só muito de vez em quandinho na floração dos dentes.
Eles eram meus. Meus amores, alegria, devoção e garantia. E ainda o são. São meus lumes mais sublimes, meu norte enfeitado, minha lente de alcance, meu religar com o passado, “meus Querubins de procissão no interior”.
Eu também sou para eles, lamparinazinha no fruir das brechas, tangedoura de aflição localizável. Quando me evocam largo tudo e parto no clarinar dos galos. Atesto minha presença com abraços bem apertados, olhos nos olhos, palavreado de adjutório e silêncio. - Tem vez que só a mudez interior alivia a carga.-  Cada um sabe o que o outro está vivendo e, vivemos felizes na meiga oferenda da simplicidade, lonjura e respeito. Não existe tristeza repisada nem segredos. Eles sabem que a qualquer momento no oitão de seus cansaços, ‘se quiser, podem fazer um travesseiro dos meus braços’. 


domingo, 14 de abril de 2013




Eu penaria sem vocês.
Eu penaria feito as ramas do pé de cipó na seca. Penaria como pena cigana velha sem voz, com roupas precárias e sem cor, procurando atávica em cada mão inválida o semblante de vocês.
Penaria feito açucenas de papel, amores-perfeitos e rosinhas discretas que enfeitam a capela solitária da estradinha brejeira e nunca ninguém as percebe.
Penaria em cada por-de-sol, em cada visita ao banhado, quermesse, festa-junina, em cada passeio, em toda poesia que eu lesse.
Penaria no esmorecer das manhãs de outono e na amareleza  das luas cheias.
Eu penaria só de ver a tigela com doce de goiaba e rapadurinha de coco Mirian Cris.
Eu penaria infeliz e morta pela ausência de vocês. Porque vocês me dão a clareza das luzes eternas, a simpleza de um céu que não tem tamanho, o esplendor dos cânticos bíblicos, os valores estocados na matéria da alma.
Vocês me dão o barulhinho dos passos de um Cristo lírico correndo feliz num prado de violetas.
Eu penaria sem vocês e choraria de saudade todas as vezes que ouvisse as cantigas de nossa tarde:
"Meninos vem brincar no mar! Oh mar vem lavar pés de menino"...

quarta-feira, 10 de abril de 2013



Ela vai chegar!
Jesus misericordioso!
Semana que entra ela chega, acabaram de me avisar!
Poetinha andeja que adquiriu tod'AQUELA belezura entre camelos e areias escaldantes dos desertos que ela mesma inventou.
A verdade é que o deserto é o pasto, o cerradinho magro onde ela espanta as horas caçando folhas de bugre, de preferência, as diuréticas pro coração ficar leve.
Eu estou que só Rute no paiol de espigas.
Asmática de alegria e com os nervos desassossegados.
Em tempo de virar romã e rachar por não conter-me.
Deus me acuda e seja louvado!

Um abraço em TODOS de ternura antiga.
Assim que ela chegar eu posto uma cantiga, uma oração ou uns troncos de cristal daqueles que dar sorte aos bailarinos, anjos e carvoeiros...

domingo, 7 de abril de 2013


Dias a fio eu e Brisa positiva dupla, embora sem uma parte. 
Preferidas pela cintilância de uma lembrança doce, engraçada e cuidadosa.
Eu e Brisa vigilantes feito as gansas de Capitólio. 
Mil cuidados e perguntas:
- Trancou o portão Mãe? 
- E a porta, tá bem fechada?
- E se faltar gás?
- E se meu pai não ligar? - (ele sempre liga variadas vezes)
Estranhávamos o silêncio da casa, a falta dos chinelos emparelhadinhos ao lado do sofá e, em especial o cheiro fumegante advindo das travessas que ele enche de comidas saborosas.
Finalmente chega a Criatura!
Revelando-se em novidades, cultura, alegria e cansaço na surpresa das horas.
Abracinhos ternos postados em certezas.
Até a velha hortinha, roída pelas formigas amanheceu de cara melhor e, todas as flores da casa ganharam uma cor durável de sentidos.
Conversinha de pilão, de companheirismo e projetos, da falta de chuvas no sertão nosso, das borboletas e cidades com futuro.
Nem abri o jornal. Seus olhos avarandados de outono nos encheu de notícia.

Feliz tempo de amizade e retornos.

"liberdade na vida é ter um amor para se prender".

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Vamos subir a ladeira 
vamos pra feira Neguinho
experimentar melancia
comprar tomate e cominho

Vamos pra feira Neguinho
tem viola e cantoria
tem leitura de cordel
soindenoiva* e poesia

Tem também manjericão
araruta, flor-cidreira
tem massa de mandioca e
galinha de capoeira...
volte logo viu Neguinho
Pra ir comigo na FEIRA


Para Reginaldo Poeta que de repente não mais que de repente 
virou o mais passeador da semana.

segunda-feira, 1 de abril de 2013




Hoje eu escrevo porque sou uma desesperada que acaricia as imposturas de certas vivências indigestas. Escrevo porque uma trêmula tristeza me descompensa, aborta-me em choradeira.
Escrevo porque a praça está cheia de lixo outra vez. Porque a mãe grávida do TERCEIRO  grita para o SEGUNDO 'calar-a-boca' senão lhe quebra os dentes.
Escrevo porque o consumo de objetos materiais continua sendo uma exigência para a Integração Social.
Escrevo porque dói, toda essa falta de poesia!
Porque em alguns momentos,  sinto como se não existisse mais bailes,  saraus antigos,  retratos na parede,  assobio do pai carinhoso que segura firme na mãozinha do filho pequeno.
Sinto como se houvesse sido extintas todas as cantigas das lavadeiras com seu cheiro gostoso de água e sabão-de-coco, rodilhas de pano, trouxa de roupa e pedras de anil guardadas na touceirinha de capim gordura.
 Parece não existir mais a casa que cheira a rosas de terreiro nem as quermesses de maio. Tá tudo tão seco, tão frio, tão pântano sem acorde que eu sinto-me como se fosse  uma vasilha velha de olhar caído, acocorada no pé do borralho  preferindo tecer esteiras com cipó fino tirado do brejo, a ser gente e, ter essa voz de sino grande que não serve para nada.

sexta-feira, 29 de março de 2013



Deve mesmo de ser AMOR o que nos forma parelha
eu continuo com este maldito déficit de atenção
entupindo a pia com talinhos de macarrão dormido
largando palanganas na banqueta
sapatos no carro
livros por todos os cantos
esquecendo os óculos de aumento
enchendo todos os risos d’agua
Ele não alteia a voz
não fica amuado
não dar UM pitaco
nem chama por DEUS
até vai a vendinha que eu prefiro
assuntar com Zé Coco se domingo tem peixe...

domingo, 17 de março de 2013

Poeminha avulso, feito indagorinha, sem postura, solto,
modestinho e roto. Incitado pelas postagens de uma linda e dócil Maíra Belintani.

Por causa dela 
apanhou pitangas de lampírios e maxixe bem maduro
desenhou escadinha caracol
esqueceu o tropel, a torneira aberta e as roupas no varalzinho de bambu
agonizou feito Cristo nu, numa cruz roxa sem pólen
rouquejou com os sapos e
assobiou para os ipês amarelíssimos...
Por causa dela fez-se célere,
emissário em trânsito etéreo
calçou as botas sete-léguas e caiu no mundo
cara de boi-fubá mofino e tomador de sereno
enfiando as canelas nas moitas de capim da praça singela
em busca da flor musa-malvada e noturna
que lhe deu estrelas, repuxos no peito e aguardamento
que o fez esquecer seu próprio nome e tremer na claridade baixa
de êxtase e silêncio...

terça-feira, 12 de março de 2013



Trinta e sete minutos com a irmã ao telefone e até esqueço que sou mamulenga mulambuda e amundiçada. 
Ela é de um lirismo comunicativo que sempre me valho.


Você acariciou as borbulhas de minha quietude
e juntos voltamos a planejar obtusos voos
na parede da janelinha adormecida
percebi tuas digitais
sinal que já viestes outras vezes
se eu não detivesse essa maldita porção cautelar
que limita-me a pecadozinhos indômitos
juro que pleitearia o paraíso de novo
com meu instinto de margaridinha silvestre
motivos íntimos e suspiro afagoso


Fomos para a Praça, Rua 15 e Calçadão.
Numa entrega amigável revalidamos a Literatura Joseense.
Poesia Sob o Sol  primeira edição
Porque amar também é portar a filosofia dos que nunca se arrependem
 por se envolver com ternura. (09/03/2013)


Este amor já virou sagrado
como o arco da promessa de ocre bordado 
pra durar...
D.Ruth Guimarães de novo não compareceu por motivo de saúde.
Mas valeu a penas pelas outras Maravilhosas Mulheres!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Uma resposta para esses DOIS Anjos de minha vida Vale Paraibana!



Desse jeito eu fico encabulada
Grão de bico em dia de colheita
Consciência e alma satisfeita
Xique-xique em tempos de invernada
Lata d’água cantando pela estrada
Flor do campo cobrindo caderneta
Canto doce num peito que se ajeita
Sentimentos guiados por sorriso
Amizade é TUDO que preciso
Meuzamigos, sem vocês, sou quase NADA!

Continuo pelos jardins com vocês
Cantorias, horta e pomares
Céu de lírios, abraços seculares
Pinheirinho, labores, escassez
Sonhos prontos e palmas toda vez
Que escutar poesia de primeira
Sou valente, criei-me na Trincheira
Escapei sem zangar o Paraíso
Amizade é TUDO que preciso

Meuzamigos, sem vocês, sou quase NADA!

Perdoem-me o excesso de vaidades, mas com gente comos estas, há quem fique sem contenteza?!

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Coluna Crônica Jornal de Caçapava: A Moça das Saias Coloridas.

(Jornal de Caçapava, 22 de fevereiro de 2013.)


     Zenilda Lua nasceu em Patos, na Paraíba, em nordestinos vinte e três de janeiro de 1971. Nasceu para a poesia, mas nunca fugiu de suas outras sinas, nenhuma delas. Mulher guerreira e batalhadora sabe viver a fina flor do que nos faz mulheres, secretamente entranhado nas linhas de sua escrita. Há que ler para entender.

    Em 1992, veio para São José dos Campos, veio para o amor, para o trabalho, para os amigos, para tornar o cinza mais colorido e mais vibrante como suas saias rodadas: elegantes e finas como sua arte. Veio ser a poesia que sempre foi. Quando nosso encontro extrapolou as linhas, tive a satisfação de participar de dias mais amenos, manhãs mais domésticas e fins de tarde pesquisados em nossos sonhos de trabalho revigorante, de descobertas literárias que não escapem ao humano, pois nós gostamos de gente. E, é difícil gostar de gente, é trabalhoso aprender a respeitar a diversidade, é custoso ver-se no outro, mas Zenilda Lua o faz tão tranquilamente, tão poeticamente, que às vezes fica difícil saber se algum dia, sequer, ela tenha olhado para a vida, tenha respirado o mundo sem o oxigênio lírico. Será?

   Sim, nós temos A Moça das Saias Coloridas e já não é possível imaginar essas ruas joseenses sem a cor de suas saias. Já não podemos supor as praças sem seus saraus, os encontros sem seus abraços, sem seus acalantos, sem sua disposição constante.

   Nesta cidade tão distinta, tão agigantando-se, uma migrante nordestina nos faz mais próximos, mais amigos, mais humildes em nossas angústias, mais fortalecidos em nossos sonhos. Nesta cidade que ‘anseiam’ tão tecnológica, ela, poetisa, nos oferece uma inspiração bucólica, cheia de perfumes, sons e agrados sertanejos. Tudo combina tão bem com o asfalto histórico simbólico que tão poucos... Deixemos...

   Há muito tempo venho tentando lapidar letras à altura da generosidade poética e humana de Zenilda Lua, não sei fazê-lo a contento; não me atrevo à crítica, não quis desistir; resolvi apenas prosear com sua poesia, reli, reli, reli. Na incompetência de lhe dizer o quanto significa para todos nós, recorro à suas letras, que jeito melhor?


Quimera 77

“Destilada a seiva
e a memória latejando o peito:
Pai, Bênção!
Pai, reza comigo!
Pai, apaga a luz!
E aquela voz de sítio molhado
chegava crua num assobio singelo:
_ Tô indo, Fia!”



Zenilda Lua é autora de Alfazema (2007) e Aparador de Quimeras ( 2011).


Sônia Gabriel


Décimas para Zenilda

 
Às vezes sinto a paz ameaçada
ao escutar discursos e sermões;
mas sei, também, dar belos safanões
em quem critica muito e não faz nada...
Eu tenho a alma desassossegada,
por isso é que festejo a ALEGRIA
que sinto ao receber toda POESIA
que chega dessa amiga tão valente:
Zenilda é verso puro, minha gente,

e vale muito mais que academia!

Mantemos nossos braços sempre abertos
pra Lua, companheira de jornada
que junto às flores faz sua morada,
enchendo de alfazema até os desertos.
Aos invejosos, digo: fiquem certos
de que essa minha amiga, todo dia
conduz a VIDA assim, com maestria,
é doce e não a quero diferente:

Zenilda é verso puro, minha gente,
e vale muito mais que academia!
P.R.Barja

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

domingo, 17 de fevereiro de 2013



Sofro de ouvir funk no volume máximo.
Fecho todas as portas e cortinas. Reforço à soleira da cozinha com tapete de cordas; não adianta. O som do purgatório (só pode ser esse) entra. Entra e me desatina. Entra pelos vãos da calha, pela frouxura do oitão, pelas veias da laje, pelo respiro das ripas e telhas. Entra pelo silêncio da horta, pelo beiral do vidro que protege a janela.
Não consigo ler, ver televisão, adiantar pesquisas. Não consigo nem conversar com a filha.
A tortura advinda dos quintais vizinhos invade o entorno, reforçando sintomas da decadência de uma parte da humanidade.
Para aliviar a exaustão auditiva só mesmo pegando a estradinha do Bosque, parando na divisa das pedras, afastando os gravetos, encostando-me no tronco do flamboyanzeiro e lendo Wandecy Medeiros: “Seguimos a canção” e a canção nos dominou. A canção nos obrigou a comprar, a gritar, a dançar, a pular, a rezar, latir, miar, grasnar, urrar e rinchar.
De repente o mundo se afrouxou e tudo virou vaselina. [*]

* Wandecy Medeiros é jornalista e escritor paraibano.



domingo, 3 de fevereiro de 2013



Buscaremos outras portas sim, outras posturas, outro alento, acessos e conjunturas.
Buscaremos sem descanso, como quem busca a última gota nos confins da sede.
Continuo sentindo-me um inseto mancoso, enganado e espetado ao fundo da maior escuridão cavernosa.
Para aliviar a acidez da estranha sensação que me consome, só olhando a Brisa e ouvindo Zé Geraldo: Banquete de Hipócritas!

domingo, 27 de janeiro de 2013


Quando mocinha nunca pensava em namoro
pensava na minha mãe e na sua custosa melhora
mas um dia veio um moço
trouxe poemas para minha mãe 
"e um par de algemas para mim"
até hoje estou no coração dele
presa por vontade...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

"Cada tauba que caia doía no coração"

 
Meu grãozinho de vento suave, como explicar tua força se em teu berço nunca enlacei pedras nem corda de lira que repuxa?

terça-feira, 22 de janeiro de 2013



Hoje faz um ano!

Botei meu coração na estrada e com minha filha e alguns amigos voltamos ao local, onde muitas vidas foram tocadas... Literalmente.
Se algum de vocês encontrarem  Vitória diga que mandei lembrança. Ela é filha de Ana Cristina, tem um irmão de 10 anos que se chama Jefferson e que lamentava ter perdido todos os seus brinquedos. Além de Jefferson ela tem mais  três irmãos que não consigo me lembrar seus nomes.



Oh menina desobidiente!!!


...Ela dizia de forma banguela e soletrada, enquanto acenava com a mão direita, chamando-me debaixo da arvorezinha.

Ana Cristina parecia uma flor que chora.

Após sair da igreja, não encontrou lugar no abrigo e fez da arvorezinha seu novo lar. “Uma moça compadecida, de nome Beatriz, nos deu essa cabaninha”, apontava para a barraca de camping.

Ana tinha cinco crianças, um marido desanimado e um desejo gritante: conseguir notícia da filha mais velha que estava internada desde o dia da desocupação, em 22 de janeiro de 2012; ela não sabia em qual Hospital.

Sentei-me no chão, ao seu lado. Ela segurava seu menininho no colo enquanto eu começava a ligar para as colegas assistentes sociais. Hospital 1, 2, 3. A filha estava no Municipal. Clínica I, quarto 103. Sem previsão de alta, quadro de saúde estável, visita das 11h as 21h.

Levantou-se com a notícia, deitou o filho numa manta sem cor e, soluçosa,  me apertou num abraço. Depois, voltou a apontar a desobediência da filha do meio, que andava rejeitando almoço e, sem chinelos, seguia brincando de pisar nas poças d’água que escorriam finas, deixando o entorno mais enlameado.

Entreguei-lhe dois “vale transporte” para que visitasse a filha no hospital e dois pares de chinelos para as crianças. Despedi-me da família. Deixei um cartão com o número do meu telefone se precisassem. “Preciso não senhora. Preciso de mais nada. Deus te proteja de toda maldade. Que nenhuma janela se feche pra ti”. Ana me recomendava aos seus santos adormecidos e eu voltei para casa desejando um fortíssimo e sonífero licor de papoulas.

Dois dias depois, o telefone tocou no meio da manhã. Era a Vanda Siqueira, queria saber se eu iria ao abrigo e fazia-me um pedido de alma, dessas almas que assemelham-se ao infinito.

“Zê, preciso muito que você entregue um kit escolar para uma garotinha chamada Vitória”.

Vanda, onde fica a Vitória? Perguntei cautelosa;  em meio a 200 famílias abrigadas deve haver uma dezena de Vitórias. Ela não sabia onde ficava a menininha nem quem era sua família. Conheceu a criatura numa visita de domingo. Encostada no alambrado sozinha, pedindo um caderno e uma caixa de lápis de cor. As aulas começariam na próxima segunda e todo o material escolar comprado pelo pai ficara na casa que foi derrubada.

Impregnei-me com a imagem. Precisava atender aquele pedido e, no meio da tarde, cheguei no abrigo com várias sacolas, caixas e um kit escolar bem recomendado. Pedi ajuda de conhecidos.

Juliana gritou com elevada altura das escadarias, três vezes:
- “Tem alguma Vitória por aqui”?

Apareceram diversas; no colo do pai, da mãe, da irmã, do padrasto, vizinha… mas nenhuma tinha idade escolar.

Agradeci à Juliana; com a esperança amarelada, guardei o kit no carro e resolvi descer ao encontro da Ana, a fim de saber se havia conseguido visitar a filha.  Atravessei a quadra, passei pelos guardas, cheguei no brejinho, ao lado da árvore, onde os capinzinhos molhados pinicavam o sossego das poucas florzinhas azuis que abraçavam a cerca.

Ana não estava. Somente as crianças e a filha que, agora com os pezinhos calçados, não brincava de chapear as poças d’água; espiava do alambrado os passantes. Veio dócil atender-me. Contou que a mãe “tinha ido buscar umas coisas que a madrinha deu”.

Perguntei se queria conversar, disse-me que não. Estava muito ocupada. Esperava uma moça de cabelos curtos e bonita que um dia lhe prometeu um caderno e esqueceu de voltar.

“Soubesse tinha pedido para você o caderno, invés de chinelo” – lamentava – “depois de amanhã bem cedinho minhas aulas vão começar”- falava baixo sem tirar os olhos da estrada.

Perguntei o seu nome e ela respondeu-me com outra pergunta: “Vitória. Você vai me ajudar”?

Vitória? Você se chama Vitória? Refiz a pergunta hasteando uma alegria desconhecida! Foi a resposta mais afirmativa que ganhei.

Sim, nunca mais vou saber a hora de preparar meu coração, pensei num estalo.
Encarei aquele olharzinho demasiadamente sincero, segurei suas mãos pequeninas e mal lavadas… – não deixei que ela visse meus olhos e a levei até o carro – emoldurando as ocorrências, entreguei-lhe a sacola com tudo guardado e cheirando a novo.

Seguimos abraçadas de volta até o pé da amoreira onde a família se acomodava.
O sol encaminhava-se sonolento para se pôr e nós estávamos ali: Deus e seus anjos, eu, Vitória, Beatriz e Vanda. Minha escuridão sertaneja já não era tão aguda.

Fiquei alguns segundos olhando aquela menininha em êxtase com suas “coisas de escola” enquanto os irmãos seguiam risonhos, com dois pneus velhos molhados, brincando de soldados.

E foi assim que aquela mocinha tão única e tão simples me cativou. Sou uma raposa chorona e lucro por causa da cor da amora; ela vai sempre me trazer a lembrança dos olhos da Vitória.

Ana Cristina alugou uma casa e conforme disse –  “não precisava de mais nada”- , nunca me ligou.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013


Janeiro é um antigo mijão desajeitado
pia que pinga emperrada
embotando os muros
apagando o sol
melindrando estradas
enfileirando lesmas e caracol descostumados
é uma pistolinha de água que brinca de espirrar mole
até esvaziar todas as caixas d'água que no céu cabe


domingo, 6 de janeiro de 2013


As coisas definitivas não precisam ser solitárias. Acredito que foi pensando desse modo que Beto Jaguary reuniu tanta gente capacitada e nos entregou o Kaipir@ Antenado, seu mais recente trabalho, um cd repleto de considerações.
Depois dos “Xotes pé-de-serra” do Forró Floral e, da poesia límpida do Semear, o Kaipir@ Antenado sinaliza bons ventos. Com um roteiro muito bem enlaçado, a sonoridade parece acústica e está cheia de enfeites bonitos.
Beto tem o que ninguém lhe pode tirar; uma ótima voz e uma fé incrível. Em todas as faixas ele canta com intensidade original. Suas músicas são de uma ternura doce.
Neste momento, que lhe parece mais reflexivo, Beto não se intimida e consegue reunir acordes, humildade, verdades e beleza numa mesma ala musical.
Sugere uma harmonia intimista com o sagrado, apresenta transformação que passa pela colcha de retalho ao vaso novo. Somente sua enorme intimidade com as palavras, combinações e ritmos fazem com que a linguagem de todo o cd nos forneça poesia.
Coisa de quem sabe que o céu também começa nas pedras. “Coisa de quem sabe que a materialidade da vida não esgota seus significados”.
Beto canta. Canta a vida. Canta o que alumia e o que dói. Canta o amor, a esperança, a inclusão e a ausência. Canta o verde no olhar do amor que deseja o cheiro da terra e seus milagres. Canta a migração dos pássaros. Canta a flor que sai do sentimento para virar poema. Tudo simples e importante feito à coloração das frutas, a água da chuva ou do mar filtrada por infinitos.


Por Zenilda Lua 
Verão de 2012.


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

sábado, 15 de dezembro de 2012


Na compartilhação dos gestos somos todos sujeitos de direitos, esperançosos e criativos. Recolhendo os bons sinais das vias, amparados aos amigos sob o arco-íris da boa vontade e da benevolência divina.
Foram muitos e levara sua alma, sua feitura de dizeres, seu canto, seu silêncio e abraço. 
Eu sei que permanecerão incontáveis diferenças internas mas JUNTOS somos mais fortes e bonitos!
Participamos com Poesia nos Pratos e foi muito válido!