sábado, 4 de dezembro de 2010




Meu pai agreste se foi bem cedo. Cativo do álcool abriu todas as torneiras do desafeto e nos deixou numa véspera de domingo dia de Nossa Senhora da Conceição. Meu pai católico, provedor de versos curtos, soltador de fogos de artifícios e pescador de primeira. Tinha voz terna e um cheiro diferente que eu infante desconhecia a procedência. Quando mais tarde dando falta de ternura e da sua mão que nunca mais tocara a minha, entendi a rudeza da sua fala e passei a detestar aquele cheiro com a maior força que a verdade pode guardar.
Meu pai abortou as nossas passagens mais engraçadas. Proibiu flores e cantigas. Ficou sovina. Suspendeu sentimentos essenciais e por muitas vezes fez de sua presença um incômodo.
Estendíamos a fita de cor para refazer os laços que a bebida havia esgarçado, ele anoitecia e nunca aceitava. Fortalecendo na gente aquela dor amargosa e deselegante.
Não chorei a morte do meu pai. Suas escolhas renegaram minhas lágrimas, amor e fonte de ajuda. Após deixar seu corpo na lápide 2 do cemitério São Miguel voltei para casa descoberta e forte.
Guardei seus chinelos e o lençol que cheirava cigarros. A rede de pesca, arreios e sela, atras da porta, adornavam silenciosamente aquela tarde única e grossa.
Minha memória revirava a casa e não encontrava uma sombra tênue de carícia paterna. A ponta de afeto mais fina que fosse propiciar uma saudade futura. Meus quatro irmãos e minha mãe choravam quando os abracei e saí indecifrável.
Hoje entendo que tudo aquilo foi um aprendizado necessário para fortalecer minhas intenções. O quanto a literatura foi importante para mim naqueles tempos espinhosos de aconchego falho, liberdade negada, falta de despedida e bênçãos. Tudo aquilo promoveu em mim o desejo sóbrio de cuidar dos que me cercam. Percebi a família como base detentora de valores que regem nossa vida e história.
Pobre meu pai, sem convenção espiritual ou intelectual perdeu-se nas teias venosas da caminhada etílica. Ouvindo Chico Buarque numa dessas manhãs de domingo, lembrei-me dos olhos claros que meu pai tinha e desprovida de dor chorei sozinha.

"Depois de te perder
te encontro com certeza
talvez num tempo de delicadeza
onde não diremos nada
nada aconteceu
apenas seguirei como encantada, ao lado teu"...

Zenilda Lua

11 comentários:

wallace Puosso disse...

minha linda... essa sua narrativa me recordou a lavoura arcaica de Raduan Nassar que depois do livro estupendo virou um filme de tirar o fôlego. Lembrou-me pois a relação com o pai-arquétipo de lá é muito próximo da relação estabelecida aqui. Quero levar esse teu texto (particularmente) para o teatro. As imagens descritas no texto rememoram minha infância, fazem eco e traduzem dor na memória outrora esquecida. e tem a ver com minha busca e pesuisa teatral. Obrigado por me proporcionar esse momento uno, ímpar. Você, uma flor colorida num jardim em preto-e-branco. bjs!

SONYA MELLO disse...

Zenilda, nunca vi ninguém tecer tão duras lembranças de forma tão real e ao mesmo tempo, tão calma! Fiquei emocionada. Resgatei com gratidão à Deus, os momentos que tive com meu pai, que também já se foi, há 5 anos! Deus tem me suprido a necessidade da presença dele mas, a saudade, ah, essa não há nada que remova do meu ser! Deus te proteja também junto aos seus e preencha a necessidade de pai do seu coração! Bj

José Antonio Braga Barros disse...

Outro dia chorei a morte de um amigo. Aqui não é nenhuma metáfora.
Era amigo mesmo, desde os tempos de criança. Acompanhamos sua caminhada, suas conquistas, suas alegrias e suas lágrimas. Não era um modelo para nós seus amigos, porque nosso pequeno grupo de amigos se caracteriza mais pelas nossas diferenças do que pelas nossas semelhanças. É claro que temos coisas em comum. Mas o foco aqui é que ele faleceu. Quem escreverá uma biografia mais próxima da realidade que ele viveu. O que sobrará de nós?
Zenilda à moda de Bispo do Rosário vai bordando sua vida-literatura, palavra por palavra, às vezes no avêsso, às vezes com as letras espelhadas, mas sempre com a ternura de mulher, mãe, esposa,
filha, amiga e profissional. É gostoso ouví-la, lê-la, estar ao seu lado, mesoo quando não está tão perto fisicamente, mas nos deixa o seu recado de sábado.
Não tenho mais meu Pai e Mãe, a saudade só tem aumentado, e quando este texto estiver no teatro, com certeza vai ajudar muita gente a tratar seus filhos e a própria vida com mais poesia, afeto, cantigas e ternura, enfim....

Wilson R. disse...

.

Mais um sentimento expresso com maestria e coração.
O choro tardio...

Abraços.

.

mural do ajosan disse...

Cara Zenilda, gosto de ler seus textos, são muito bem escritos; parabéns pela estrada que você nos faz percorrer ao recontar sua história; grande abraço e tudo de bom.

Eduardo Silva disse...

Oi Lua,

SIMPLESMENTE EMOCIONANTE.

Vejo que tenho muito que aprender com você. Admiro seu trabalho.

PARABÉNS e continue sendo esse ser iluminado por Deus.

vanessacamposrocha disse...

um blog sensível e cheio de poesia!
adorei!

Tatiana Morgana disse...

Você poe magia em suas palavras e me fez viver e ver essa sua narrativa, como num filme em preto e branco...
Parabéns pela escrita e por depois de tanto tempo permitir-se chorar e perdoar!!!
Paz e Luz.

Zenilda Lua disse...

MeuZanjos líricos!!!
Que felicidades tê-los aqui...

Wallace, leve para onde você quiser.
Não é mais meu. É de vocês e é de verdade. bj'Z de conduta terna.

Sonya
Pensei também nos momentos bons que vivenciastes com teu pai. Aposto que bagunçou o cabelo dele algumas vezes como toda menina de arte.
Dia menos dia todos nós padeceremos de ausência.
Obrigada pelo teu olhar.
bj'Z

Braga (meu Outro Poeta querido)
Já escrevi sobre o Bispo do Rosário e teus cuidados de leitor amigo paciente com esse povo da Paraíba enche-me de esperança, acalenta a vida.
Um abraço do seu fã clube Bris'Almeida.
bj'Z


Wilson Roberto poeta estimado!

Muito me alegra teus sinais.Tua escuta, tua generosidade de nos ensinar pacientemente em gotas diárias.
abracinhos de amiga
bj'Z


Eduardo Silva, Vanessa Campos, Tatiana Morgado... nem tenho palavras para expressar a alegria de ter vocês como visitantes indispensáveis.

Gratidão por todos os poros e de todas as cores ternas....

bj'Z

priscilaluzdias disse...

Zenirda

agora entendo mais o fato de vc está a frente nos projetos de combate a dependência.
Agora entendo pq vc nos fez chorar naquela palestra ao falar das implicações do alcool na familia.

criaturíssima.
amo TU.

Ceissa disse...

Querida Lua!
Só hoje li esse seu texto, e me tocou fundo.
Já experimentei dor como essa , ou a falta dessa dor.
Só você, para colocar tão bem em palavras simples, sentimentos tão complexos e muitas vezes indizíveis.

Um abraço cheio de ternura!!!
Ceissa.